26 de ago de 2009

Um desabafo feito no dia 09 de novembro de 2008

Numa madrugada mandei este e-mail para um sem-número de pessoas. Nem tudo o que está ali ainda permanece, mas não posso deixá-lo desaparecer da memória de alguns:

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São 3:35hs da madrugada de sábado para domingo, e mais uma vez perdi o sono. Há dias venho adiando a decisão de colocar para fora tudo o que estou pensando, mas de hoje não vai passar, minha saúde física e mental devem ser preservadas:

Estou em Joaçaba há dois anos e desde então tenho atuado na causa animal, mas como todos sabem a minha postura frente a esta questão nunca foi de protetora independente, aquela que sai por aí recolhendo um ou outro animal, levando para sua casa e depois se desesperando para encaminhá-los. Minha postura e minha visão é uma pouco mais ousada: eu luto por políticas sérias de proteção animal!

Portanto a partir de hoje, não me procurem para saber se eu tenho um "espacinho" em casa para algum animal, pois a resposta será "não". Este "espacinho" não é só na casa, é também na vida social, no casamento, na atuação como mãe, como filha, como irmã, como tia, como amiga. Este ano vou me dar ao direito de ver o mar, de abraçar os meus entes queridos que há tempos pedem a minha presença. Vou atender a minha filha que está numa maratona louca de vestibulares e eu não estou lá, ao lado dela, em nenhuma das provas.

Cada um deve ser responsável pelos animais que apareceram na sua frente. Ouvi de uma pessoa: "mas eu ajudo a ONG, eu recolho animais"... Pelamordedeus! Desde quando recolher um animal, telefonar para a minha casa, para o meu celular fazendo chantagem emocional é ajudar a ONG???? Cansei de receber ligações do tipo "se você não ficar com o cão/gato eu vou ter que abandonar, euntanisiar". "Olha, meu marido não quer cachorro aqui em casa". "Eu já tenho um/dois em casa e não posso ficar com este". "Eu moro em apartamento".

Engraçado, eu tenho que bater de frente com meu marido, eu tenho que andar num carro de 14 anos de idade porque tiro dinheiro do meu bolso pra pagar estadia de cachorro que adotei ou recolhi da rua, ou pagar ração para cachorro que me enfiam goela abaixo! Eu tenho que ficar acordada de madrugada porque os cães recolhidos resolveram latir e os vizinhos querem dormir (eu também quero dormir!). Eu tenho que deixar de viajar nas festas de fim de ano ou quando a filha distante está doente porque não tenho como deixar os cães (os meus e os das pessoas que têm todo o tipo de desculpa para não assumir a responsabilidade sobre o animal que recolheu).

Sobre a ONG, há tempos venho percebendo que tudo está sobre meus ombros, mas esta responsabilidade eu trouxe para mim e não vou reclamar. Apenas informo que as feiras estão suspensas sem data para acontecerem, pois não sei se terei tempo de ir em busca de todas as licenças para instalá-la em outro lugar, bem como estou cansada de levantar no sábados às 7:00hs e trabalhar até o domingo ao meio dia por conta das feiras. Alguns perdem a tarde de sábado e eu sempre "perco" o meu fim de semana. Sem falar das horas correndo atrás de divulgação.

A partir de hoje o telefone da ONG estará desligado sem data para ser reativado, pois 99,9% das vezes do outro lado da linha está uma pessoa que acha que eu tenho a obrigação de ir buscar um animal ou de pagar um tratamento para o seu cão/gato afinal "vocês recebem dinheiro do governo pra fazer isso, né?". Se ligações caírem na minha casa ou celular particular serão atendidas como "engano", pois algumas pessoas que nem sabem quem sou se dão ao direito de ligar a hora que bem entender e exigir que eu atenda seu chamado!

O povo sempre foi mal-acostumado, antes tinham o Teodorico, agora pensam que têm a "Bete"; esqueçam! Eu não serei a nova edição daquele homem que acabou com a sua vida porque não sabia dizer não aos que apareciam pedindo "ajuda". Estou sendo egoísta? Não, estou sendo prática, pois se eu ficar atendendo a Lulu ou o Totó, um sem número de animais não se beneficiarão de práticas de saúde públicas que não foram criadas pelo simples fato de que a pessoa capacitada para isto estava muito ocupada catando cocô, lavando potinhos, servindo ração.

Algumas vezes me refiro aqui na primeira pessoa e em outro faço referência à ONG, peço perdão, mas sinto que estes entes estão se (con)fundindo, não por minha vontade, mas pelo fato de todos recorrerem a mim como a solução para todos os problemas. Meu Deus, eu não tenho super-poderes! Sou muito capaz, tenho estudado muito; vou usar esta capacidade e esta bagagem para trabalhar em algo mais amplo, mais inteligente, mais ambicioso. Não vou desviar o foco do que me propus: trabalhar num projeto bacana para que no futuro não tenhamos mais que nos desesperar porque "ninguém quer recolher o bicho".

Os animais que precisam ser ajudados não se restringem a cães e gatos, são também os que estão nos circos, nos rodeios, nos abatedouros, etc. É por todos e por cada um deles que me dispus a trabalhar, a assim vai ser. Quem estiver disposto a me ajudar nesta empreitada, obrigada! Afinal, desde o início dos trabalhos, naquela primeira reunião, foi esclarecido que nosso grupo não se restringiria a um "bando de alienados que ficam por aí recolhendo cachorro na rua". Quem tiver interesse, a ata está à disposição.

Esses dias fiquei feliz quando uma pessoa me procurou relatando o problema de um CCZ da região. Prontamente me coloquei à disposição para ajudá-la no que for preciso, por dois motivos: o primeiro que não estou socorrendo um indivíduo e sim agindo sobre uma realidade que afeta um sem-número de animais, segundo porque vou aprender muito e evitar que isto venha a acontecer aqui em nossas cidades.

Quero que todos entendam que não estou fazendo aquele jogo "não está sendo do jeito que quero, vou abandonar a causa animal". Não pretendo abandonar a causa, está no meu sangue, nas minhas entranhas, apenas me darei ao direito de também ser advogada, empresária, esposa, mãe, filha, tia. Além de poder atender outros projetos que acalanto em minha alma.

Quanto a denúncias de maus-tatos, procurem a polícia, é ela quem tem o dever legal de agir nestas situações! Vejo que muita gente me procura porque não quer parecer antipático com o vizinho, com o parente, com o patrão. Eu posso parecer antipática aos olhos de todos, né? Esta será mais uma coisa que não farei mais. Que cada um assuma para si a responsabilidade, que tenha coragem de se posicionar. Se for para pedir orientação, estou às ordens.

Resumido: a partir de hoje trabalharei em coisas que acredito serem sérias e relevantes para mudar o atual panorama, que pode até ser denúncia, ou o socorro de algum animal, mas eu vou analisar qual o reflexo disso no projeto de trabalho que tenho, algumas situações merecem ser analisadas em particular.

Aos que já trabalham junto, estes sabem de quem estou falando, meu eterno agradecimento. Aos demais, estão convidados a arregaçarem as mangas!

Com carinho,

Bete

PS - só para lembrar: não sou rica, não tenho marido rico, não sou assalariada, não sou funcionária fantasma, ou seja, se trabalho eu ganho, senão...

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