21 de set de 2009

Eu não sei como as coisas funcionam por aqui

(publicado no Jornal Cidadela em 18/09/2009)

Confesso que esta semana não foi fácil para mim, a começar pelo simples ato de estacionar meu carro no centro da cidade, mas isso nem teve importância diante de tudo o que vinha acontecendo ao meu redor, parecia mesmo que “a bruxa” estava solta. Sabe aqueles dias que começam e terminam pesados, que você acorda e vai dormir com uma sensação de que o mundo lhe pesa nas costas?

Acho que a morte anunciada de um conhecido próximo me fez relembrar outras que me marcaram de uma forma ou de outra. Falo do meu sogro Zelindo Branco. Nem cheguei a conhecê-lo (e se tivesse nem teria atentado para mim, afinal ainda era uma criança quando ele passeava de moto por estas paragens). Sabe aquelas pessoas que te dão saudades mesmo sem ter conhecido? Talvez pelas incontáveis histórias que ouço sobre ele, sobre o seu jeito alegre, sobre sua forma de levar a vida, de sempre estar disposto a ajudar os amigos? Algo como “nunca te vi, sempre te amei”.

Quando soube das circunstâncias da sua morte, que ele havia atropelado um porco, logo lembrei do meu avô que havia atropelado um cavalo e também foi a óbito. Coincidências da vida, até mesmo porque meu avô morou em Joaçaba e por certo também foi amigo do Zelindo...

Por conta da minha profissão o inventário acabou vindo parar em minhas mãos, tinha a incumbência de rever tudo o que ali estava para chegar a alguma conclusão sobre a partilha dos bens. Agora é que o “bicho pega”: ao abrir aquele enorme volume (é assim, inventário de rico tem uma porção de folhas e documentos, e interessados), um frio me percorreu a espinha e uma idéia se fixou em minha mente, algo como “está tudo errado, está tudo errado”. Passei dias sem dormir direito, até entender por onde deveria buscar o famigerado “erro”, mas a leitura não conseguia avançar da página do Atestado de Óbito. OK, iria começar por ali.

Fui atrás de maiores informações quanto aos fatos que envolviam sua morte, onde, como, quando, por quê. Encontrei recortes de jornais que anunciavam que “viajando no sentido Água Doce – Joaçaba, Zelindo colidiu com um animal”. Tudo bem, estava confirmado, era voltar à minha leitura e virar a página. Ledo engano, pois a idéia fixa permaneceu até o momento em que resolvi, juntamente com algumas outras pessoas, fazer uma investigação mais detalhada e ver “no que iria dar”.

Depois de pouco tempo descobrimos que o tal porco não era “tão porco assim”, era um rapaz que trabalhava numa propriedade próxima... Bingo! A voz estava certa, havia um erro! Não era porco! Era cor-po!!! Mas o tal rapaz não faleceu, está “vivinho da silva”, inclusive tendo prestado depoimento na delegacia de Luzerna, porque a esta altura eu já tinha informações suficientes para pedir a abertura de um Inquérito Policial investigatório.

Algumas outras pessoas foram ouvidas, inclusive o médico que fez o atendimento naquele fatídico dia. Umas fotocópias de apólices foram encontradas no fundo de uma caixa que estava esquecida em um porão qualquer, apólices estas que não eram de conhecimento de alguns de seus filhos e que geraram bastante curiosidade tanto para eles quanto para a Seguradora, mas já se havia passado tanto tempo, nem arquivo morto existia mais. Melhor deixar como está...

Tenho todos os motivos para me sentir angustiada afinal de contas há uns dias atrás escrevi em meu blog um texto (ou seria uma catarse?) sobre não ser joaçabense e que, por conta disso, não saberia entender as coisas que acontecem nesta cidade “há mais de vinte anos”. Confesso que naquele dia eu me indignei, sapateei, sofri, mas esta semana, depois de tudo o que me veio sobre os fatos da morte do meu sogro, sou obrigada a admitir que realmente “eu não sei como as coisas funcionam por aqui”.

Mas no caso do Zelindo, depois de muitas idas e vindas, de muitos telefonemas de muitos depoimentos “em off” tudo foi esclarecido. Zelindo Branco pode descansar em paz. Eu posso dormir em paz e espero que o rapaz que ainda carrega as sequelas do acidente também tenha um sono tranquilo...

Um comentário:

  1. Pense no Zelindo, aquela pessoa meio arqueada, que circulava pela fábrica, indagando como estava o serviço. Era o mais dado com as pessoas. E num dia que comemoraram a trilhadeira numero 10.000, tambem uma enchente, imagine! Fazer colhedeiras automotrizes era um de seus sonhos. Chegaram a possuir um terreno doado pelo prefeito de Herval para construir uma fábrica, mas... Lá pelos anos 60 tinha um Galaxie branco, e seu irmão, um cinza. Uma carro desses para andar em estrada de terra. Totalmente irracional, mas sonhador. Foi diminuindo, acabar com um Fiat Uno, e um DKW de estimação. Tambem a Agrale que o levou embora. O homem era fissurado em motores 2 tempos.
    Mas os contadores de historias ainda andam por aí...

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