30 de out de 2009

Exemplos que marcam e ensinam:

(publicado no Jornal Cidadela em 30/10/2009)

É velho, mas todos ouvimos e parecemos não entender: um exemplo fala mais alto do que qualquer palavra. Chavão? Coluna de auto-ajuda? Não, simplesmente uma reflexão.

Era uma adolescente de 14 anos que morava com uma mãe que se desdobrava para nos manter, eu e meus irmãos, até hoje não consigo entender a mágica que ela fazia no orçamento doméstico. Era tudo contado, nenhum luxo, nada de roupas de marca, mas a escola sempre foi particular, esse era o compromisso dela conosco.

Uma tarde para um carro em frente à minha casa e perguntam pela minha mãe. Ela nem tinha como estar ali, estava no banco, onde trabalhava. Um senhor me entregou uma caixinha e pediu que entregasse diretamente para ela. Até à noite não consegui tirar os olhos do dito embrulho.

Dentro havia uma pulseira não muito bonita, mas o que pecava na aparência esbanjava no peso. Com certeza custava uma fortuna (pelo menos para nós que vivíamos com um orçamento apertadíssimo). A venda daquela pulseira seria um alívio, daria para comprar uma máquina de lavar ou coisa semelhante, pensei eu. Mas qual nada! Minha mãe ficou vermelha e entre indignação e revolta proferiu: “Devolvo amanhã mesmo! Quem eles estão pensando que sou? Nunca aceitei e nunca vou aceitar propina!”

Fiquei atordoada e pedi explicações, ao que ela me disse que sua função era a de liberar financiamentos de incorporadoras, então este tipo de situação era comum acontecer, mas nunca haviam trazido em casa. Ela sempre rejeitou todo e qualquer tipo de presente, então devem ter pensado “se levarmos na casa dela, por certo vai aceitar”. Eu dou risada até hoje quando lembro que ela me disse “vai pro fim da pilha!”.

Depois daquele dia, daquela atitude, nunca mais fui a mesma. Lógico que ela sempre nos ensinou a não mexer no que não é nosso ou não se corromper por vantagens oferecidas (e se fizéssemos, era uma surra na certa). Mas vê-la rejeitar aquele “agrado” foi marcante para mim.

Trouxe isso para minha vida, eduquei duas meninas, sempre tentei ser como minha mãe. Mas eu penso nos que não tiveram ou não têm uma pessoa como ela, idônea, transparente, honesta. Penso naqueles que ouvem dos pais os melhores conselhos, entretanto são estes mesmos pais que trazem para casa o saldo de um “acordo”, de um “agrado”. Viu como aquele chavão escrito lá de cima é uma verdade irrefutável?

Estendo isso aos demais que nos servem de modelo: professores, patrões, padrinhos (políticos ou não), avós, tios... Quando crianças temos nos parentes mais próximos o referencial, na vida adulta a coisa muda um pouco, e piora ainda mais se já viermos de um lar onde o bom exemplo não era uma constante. Então, meus caros, pensem muito bem no que vocês fazem no dia-a-dia, é isso que será aprendido. E depois não venham reclamar “que este mundo ‘tá’ perdido, meu Deus do céu!”.

Há braços!

Nenhum comentário:

Postar um comentário