22 de nov de 2009

Quem são as vítimas?

(publicado no Jornal Cidadela de 20/11/2009)

Pedofilia... Êita assuntinho pesado este, né?! Mas há meses venho adiando esta conversa, de hoje não passa! Devem estar pensando que é mais um texto nos moldes das campanhas institucionais que nos bombardeiam de informações e que nos colocam pânico... Vou mais a fundo, tanto que já estou preparando meu espírito para as críticas. Usarei a expressão “tio” e “criança” para definir algoz e vítima, tentando assim ser o mais ampla possível; entenda-se por “tio” qualquer pessoa.

As campanhas nos mandam “ficar de olho”, questionar nossas crianças, manter vigilância sobre onde e com quem elas andam. Estão certas, temos que fazer isso mesmo, mas elas se esquecem de nos pedir (ou de nos lembrar) de que devemos tocar nossos filhos, de que devemos lhes fazer carinho! É isso mesmo! Sabe por que uma criança se deixa ser vítima desde crime? Porque está carente de afeto! Carente de contato físico! Na falta dos pais, um “tio” vem bem a calhar...

Vocês já viram como as fêmeas (mamíferas) tratam seus filhotes? Lambem, ajeitam, buscam quando estão longe e quando choram aquele chorinho sentido. Estão sempre atentas em fornecer o maior conforto possível, lambem suas crias até que elas se acalmem, ou as lambem pelo simples prazer de tê-las consigo. Se não separamos o filhote da mãe, ela se desdobrará em cuidados até mesmo depois de adulto, sempre será seu “filhote”.

O que nós humanos fazemos? Se a criança clama por atenção, das duas uma: ou damos logo um brinquedo ou uma guloseima, ou então mandamos “engolir o choro”. Nenhum contato sincero, nenhuma entrega completa...

Uma vez um pai me comentou “Mas eu dou tudo o que ele pede! Esta semana mesmo comprei um mega game pra ele! Ele tem tudo o que quer!”. Fiquei quieta, mas faço a pergunta agora: Você brinca com ele? Não?! “Game over” para você! Você está perdendo para o jogo da vida, os “tios” ganham mais uma possível vítima.

Você é do tipo linha-dura que não admite mimar a criança? Aquele tipo de pai/mãe que distribui safanões ou que conquista a obediência pelo medo? Azar do seu filho. Mais um para a lista dos “tios”.

Sabe por que a criança aceita o assédio e o contato do pedófilo? Porque é bom! (pronto, a esta altura já tem gente querendo me excomungar). Vocês ainda têm a ilusão de que o “tio” já chega “fazendo mal”, “botando pânico”? Nããão... Ele é muito esperto! Dá à criança aquilo que ela mais sente falta: carinho e atenção. O “tio” faz o que nós pais deveríamos fazer. Lógico que ele extrapola o limite do moral e do legal, mas aí começa a doença, a tara, e para isso já estão vendo a solução.

Desde que nascemos (ou, quem sabe, até bem antes disso), temos duas forças dentro de nós, a de vida e a de morte (Eros e Thanatos, por Freud). A criança pequena não tem a noção exata da sexualidade como nós a vemos. Ela não tem noção da dimensão do fato (ou do ato), quando se deixa abusar nem sabe que se trata de abuso. Para ela aquilo tudo é entendido como algo bom, e se é bom, não pode ser errado. (Não nos esqueçamos que os conceitos de “natural”, “normal”, “moral” e “legal” são aprendidos com o tempo e conforme o meio em que estamos inseridos).

Então chegamos naquela situação em que esperamos que a criança nos relate o que está acontecendo com ela. Sabe quando isso vai acontecer? Só quando aparecer alguém que lhe dê mais atenção e carinho que o “tio”... Via de regra quem descobre tudo é uma professora, uma vizinha, uma amiga da família, alguém que estendeu a mão à criança e a fez refletir que o carinho e a atenção que está recebendo desta pessoa é o correto, pois não precisa esconder de ninguém (como no caso dos que recebe do “tio”).

Pronto! Os fatos vieram à tona! Os mais abastados escondem e procuram resolver esta questão no seio da família, os mais simplórios vão para a TV e expõem a criança a mais uma violência... Quanto à criança, só nos cabe dar todo o suporte necessário para que entenda que não tem culpa de nada, que continua sendo uma criança. Já quanto ao “tio”, a Deputada Federal Rita Camata parece ter encontrado a melhor solução: a esterilização química destes doentes/monstros. Sem o brinquedinho de armar a brincadeira perde a graça, não é mesmo?!

Devemos mudar nosso foco, vamos deixar de nos preocupar com o tipo de pena que deveria ser imposta ao molestador, ou do porquê ele praticar estes atos. Deixemos isto para os legisladores e estudiosos do assunto. Neste contexto, nós temos coisas mais importantes para fazer.

Levando-se em consideração que prevenir é melhor que remediar, então devemos afagar nossas crianças, dar colo, beijar, abraçar, ouvir, dar atenção. Nada disso aí custa um centavo sequer, todas as famílias podem e devem fornecer afeto e segurança para seus pequenos. Estando repletos de amor, satisfeitos de carinho por certo não serão alvos fáceis deste tipo de gente e nós poderemos ficar tranqüilos ao invés de nos tornar inspetores de nossa própria família.

E você? Já acariciou seu filho hoje?

2 comentários:

  1. PARABENS MAIUSCULO PRA VC BETE
    sem mais palavras

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  2. Perfeito, Bete!
    Não existe amor mais puro que o de um recém-nascido que mesmo estando limpo, sem fome e sem sede, deseja o colo da mãe apenas para sentir seu cheiro e ter segurança. No entanto, muitas mães chamam isso de mãnha, e negam colo sem necessidade, como se amor e segurança não fossem necessidades vitais.
    Outro exemplo é o deixar a chorar para aprender a dormir, ou mandar engolir o choro criando alguém com medo de expressar os próprios sentimentos.
    Tudo isso, associado à falta de tempo que os pais tem para os filhos e a estimulação sexual precoce, estão sem dúvida extremamente ligados à pedofilia.

    Ótimo texto!

    Lais Campagnolo.

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