18 de jul de 2010

O pior frio é o do coração...

(publicado no Jornal Cidadela em 16/07/2010)

E o inverno chegou pra valer, as temperaturas despencaram, é hora de tirar todos aqueles agasalhos pesados do armário e sair quentinho para a rua, já que nem todos podem ficar dentro de suas casas ao calor de um fogão à lenha. A gente sai, mas torcendo para logo estar em casa e abrigado. Deveríamos ser gratos ao Criador por isto, nem todos têm a mesma oportunidade...

Terça-feira, fazia uns três graus lá fora, meu marido me telefona dizendo: “Querida, você que é articulada talvez possa me dar uma sugestão. Estou em Herval d’Oeste no Posto de Gasolina e tem uma senhora descalça, praticamente sem agasalho, com o pé ferido. Eu não vou conseguir ir pra casa e deixá-la aqui nesta situação. Você sabe para onde devo telefonar para que alguém venha prestar socorro? Já tentei no 192 – SAMU e eles se negaram a vir”.

Continuamos a conversa e descobri que se tratava de uma senhora de nome Maria, que todos chamam de “Maria Louca”, figura conhecida, portadora de transtorno mental. Eu havia acabado de sair de uma reunião da Rede de Proteção Social onde foi feita uma explanação sobre os trabalhos do CAPS, e o nome daquela senhora havia sido mencionado. Definitivamente não existe coincidência, meu marido estava na hora certa, no lugar certo. Tínhamos que encontrar abrigo, atendimento médico e o que mais fosse necessário para tirar aquela criatura de Deus daquela situação.

Se o SAMU se negara, quem sabe o 190 da PM? Os funcionários do Posto já haviam tentado e não tiveram sucesso. A PM não iria, já conheciam “a figura” e não se dariam ao trabalho de ir lá buscá-la. Pensei em mandar que a levasse no HUST, se tinha um pé ferido precisaria de atendimento médico, mas pelo o que visto não era nada muito grave, o sangue já estava seco e não havia hemorragia. Não seria caso para hospital. Um abrigo, um albergue, a família, isso sim era do que necessitava!

Tratei de fazer umas ligações para descobrir como resolver o impasse. Descobri que ela é moradora de Joaçaba. Fiquei mais tranquila afinal de contas eu moro aqui, faço parte do Conselho de Assistência Social e da Rede de Proteção Social. Sendo em Joaçaba eu conseguiria alguém ou uma forma de ajudar a Maria. Consegui o telefone da responsável pelo CREAS, eles trabalham com abordagem de rua e conhecem a família.

Quando telefonei para meu marido ele me disse que a Maria estava sendo levada para o HUST. Fiquei aliviada, mas também muito indignada com o que me fora relatado: Uma caminhonete do Corpo de Bombeiros encostou no Posto de Gasolina, meu marido foi em sua direção para agradecer o pronto atendimento. O Bombeiro respondeu que não foi atender a nenhum chamado, foi apenas abastecer a viatura. Quando meu marido falou da Maria, o Bombeiro deu de ombros, ignorando os fatos narrados.

Diante desta situação só restou ao Branco solicitar o nome do Bombeiro e fazer pressão para que, pelo menos, olhasse aquela senhora. Ele estava a trabalho, estava usando uma viatura, por que não atender alguém que precisa de socorro? Chegou a comparar os nossos cachorros da fábrica, que estavam quentinhos com serragem nas casinhas, com aquela criatura que tiritava de frio. Não seria humano deixá-la daquele jeito.

Pois bem, meio a contragosto calçou as luvas e examinou o ferimento. Constatou também que a respiração da Maria estava ruim. Resolveu levá-la para o hospital. Meu marido foi atrás (é caminho para nossa casa), ela chegou ao HUST. Em casa tratamos de telefonar para o hospital para saber mais notícias e para perguntar qual seria o destino da Maria. A atendente disse que ela já era conhecida e que assim que tivesse alta uma ambulância a levaria para casa. Agradeci e fiquei tranquila. Maria não estava mais nas ruas passando frio e correndo o risco de morrer de hipotermia...

Na quarta-feira, ouvindo rádio, escuto uma entrevista com o Major Emerson Emerim que nos orienta a telefonar para o 190 da PM caso encontremos alguma pessoa em situação de perigo durante a noite, para que seja encaminhada a algum abrigo, pois por conta das baixas temperaturas o risco de morrer é grande.

Pois é! Na noite anterior os funcionários do Posto telefonaram para o referido número e não obtiveram a resposta desejada. Viaturas passaram por ali e sequer reduziram a marcha... E agora como ficamos? Ou o atendimento foi negado pelo fato daquela senhora já ser conhecida de todos? O fato de ela ser “louca” a faz inferior a qualquer um de nós? A faz merecer estar nas ruas passando frio e ferida?  Há abrigos em nossas cidades? Estamos preparados para socorrer quem precisa?

Com a palavra nossas autoridades.

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