13 de nov de 2010

PELO DIREITO À INDIFERENÇA

(publicado no Jornal Cidadela em 12/11/2010)

Inicio este texto com uma provocação visual. Acredito que muitos lembram das “Aventuras de TinTin” e, em uma de suas histórias TinTin vai à África. Esta série de quadrinhos é dos anos 1930 e 1940 aproximadamente, com certeza hoje não seria nem permitida a publicação de um desenho desses, principalmente voltado para crianças, mas escolhi esta imagem para mostrar como a imagem da África foi construída ao longo da nossa história.

A África é construída nos livros, nos filmes, nos quadrinhos, nos meios de comunicação em geral como esta representação exótica. O que é o filme King Kong se não a imagem da moça branca sendo aterrorizada pelo exótico negro? Estas constantes representações ajudam a formar, aliado ao histórico da escravidão, visões pré-conceituosas sobre os africanos e seus descendentes.

Hoje as visões de mundo já não são as mesmas da época dos quadrinhos de TinTin, as sociedades mudam, as pessoas mudam, e é natural isto. As leis mudam e aos poucos as pessoas vão mudando. Um negro nunca teria sido presidente da África do Sul se considerarmos que era crime se um negro entrasse no mesmo ônibus que um branco.

Há pouco tempo atrás o assassinato de índios e negros era autorizado, era permitido, há pouco tempo atrás era permitido e perfeitamente aceitável que um homem agredisse uma mulher. Hoje estas práticas são criminosas. O mundo está mudando, ainda temos muitas mortes por ódio ao outro. Em 2009, 198 pessoas foram mortas no Brasil por serem homossexuais. O Projeto de Lei que prevê a criminalização da homofobia ainda está para ser aceito. Não digo que leis escritas mudam toda a sociedade, pois apesar do preconceito racial como crime ainda se nota frequentemente comentários racistas em conversas banais. Apesar de ser crime as agressões contra a mulher, muitas ainda têm medo de procurar seus direitos e sofrem em silêncio as agressões físicas e verbais de seus companheiros. Não são as leis que vão mudar toda uma mentalidade já enraizada nas pessoas, mas a criação delas e sua devida fiscalização mostra esta mudança de mundo e aos poucos vamos nos deparar com mudanças profundas na reparação de tantos preconceitos ao outro.
             
O mundo já pode ver momentos de conquista na luta contra os preconceitos. Mandela presidente da África do Sul, um índio presidente da Bolívia, um negro presidente dos Estados Unidos, um operário presidente do Brasil e agora temos uma mulher presidente deste país ainda incrivelmente machista, tomando as palavras da filósofa Marilena Chauí, o Brasil é “machista e sexista em todas as classes sociais”. Não aponto estes fatos em sua defesa ou sua crítica, mas para pontuar que tudo isso não teria sido possível se o mundo não tivesse mudado. A questão em jogo aqui é o direito conquistado por estes representantes em alcançar o maior cargo de um país e como isto já aponta mudanças estruturais nas sociedades.

Os movimentos sociais possuem uma força imensa de luta. Estão conquistando direitos nunca imaginados, e são chave essencial para as mudanças de pensamentos. Mas a necessidade da existência destes núcleos de lutas é a maior prova de como as sociedades ainda são preconceituosas. A valorização de conquistas da Presidência por categorias excluídas escancara a todos o quanto ainda é uma luta, uma batalha diária vencer os preconceitos. Quanto tempo mais será preciso valorizar os excluídos por que “pega mal” ser preconceituoso? Quanto tempo mais será preciso toda hora afirmar que não tem preconceito para, na verdade, esconder este sentimento? Somos sim uma sociedade preconceituosa em todas as áreas. Preconceito racial, preconceito de classe, preconceito contra as pessoas com deficiências físicas e/ou mentais. Elas não são pessoas especiais! São pessoas e ponto final. São pessoas como as outras que também possuem suas limitações.

Nossa busca hoje deve ser pelo direito à indiferença. Sim, pela indiferença! Uma pessoa não precisa provar e é negra, branca, amarela, verde ou azul. Ela é uma pessoa e isto basta. Um indivíduo não precisa ser apontado na rua por ser homossexual. Uma mulher não precisa pontuar o quanto é forte, ela simplesmente o é, assim como todas as pessoas são. A busca hoje deve ser pelo direito de andar na rua sem medo de ser morto por sua opção sexual, pois, no mundo ideal, isso simplesmente não seria nem notado. Seria algo natural.

Atitudes preconceituosas estão infiltradas onde nem se imagina. Além dos preconceitos citados acima há o preconceito contra presidiários e contra sua re-inserção na sociedade, preconceito contra as opções sexuais, preconceito contra estilos de música, de roupa, de cabelo! São tantos que a lista ainda é incontável! É preciso mudar o pensamento de que todos precisam ser iguais, idênticos, gostarem das mesmas coisas e serem do mesmo jeito. As pessoas são diferentes, todas são, e por cada indivíduo ser único em suas particularidades é que todos devem ser amparados pela lei através de direitos iguais. E todos devem ter o direito de andar livremente pela rua sem serem notados e apontados.

Há Braços,

Amanda Catherine
Estudante de História da Universidade de São Paulo – USP
Arte-educadora da Bienal Internacional de Artes de São Paulo

Filha mais velha da Bete Vieira, que prova a cada dia que valeu a pena cada noite mal dormida ao lado da cama, cada hora-extra trabalhada para bancar as contas da casa e os incontáveis cursos que sempre surgiam do nada e faziam aqueles olhinhos brilharem...

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