5 de dez de 2010

Uma cidade no gerúndio:

(publicado no Jornal Cidadela em 03/12/10)

“O gerúndio é uma forma verbal que indica uma ação que está em andamento, algo que não está completo. Essa forma verbal sempre é formada pela partícula –ndo unida ao verbo.”

Eu nem precisava destacar o conceito de gerúndio, depois que inventaram os tais “Call Centers” todo mundo aprendeu o significado desta palavra, e para que ela serve. Sabe aquela coisa de fazer de conta que algo será feito ou que as providências necessárias já foram tomadas e é só aguardar o resultado? Bem isso! “Estamos registrando, estamos entrando em contato, estamos providenciando”... Tipo “conversa pra boi dormir”. Então você desliga o telefone e fica com a certeza de que foi enrolado, que apesar da resposta educada, nunca obterá êxito na sua demanda.

Engraçado como venho tendo a mesma sensação quando ouço as entrevistas dos nossos gestores públicos nas rádios locais. Não sei se o tal “gerundismo” virou moda e eles usam sem perceber ou se o seu uso é proposital, bem na linha de fazer de conta que estão trabalhando e no fundo só nos enrolam e assim vão ganhando tempo e torrando nossa paciência. Fico com a sensação de que estou ouvindo uma daquelas atendentes de “Call Center”, dá “três tipos de nojo” como dizem os jovens de hoje.

Secretaria de Planejamento. Leiam em voz alta e escutem a palavra pla-ne-ja-men-to. Não passa a mesma sensação de que algo está acontecendo, mas sem a definição de que realmente uma hora irá acontecer? É um plano, um projeto no gerúndio! Que tal mudarmos o nome para Secretaria de Planos e Projetos? Talvez assim a gente perca esta sensação de que nada tem desfecho. Eu, pelo menos, acredito no poder das palavras.

Fico mais indignada ainda quando abro um jornal e vejo que Herval d’Oeste caminha a passos largos para se tornar uma cidade melhor. Não me entendam mal, eu torço por Herval d’Oeste, quero vê-la cada dia melhor, mas sendo ela praticamente a outra metade de uma única cidade por que para este lado do rio a gente só fica no gerúndio? Que tal fixar datas e metas e cumpri-las? “Póde sê ô tá difício”?

“Estamos licitando”. Outro gerúndio que me dá calafrios. Não tenho esta visão “terceirizadora” que nossos gestores têm. Acredito que muita coisa deveria ser tocada pelo Poder Público. Alegam que terceirizar é economia, sei lá, tenho minhas dúvidas. Quem está contribuindo para o Fundo de Pensão dos funcionários? Uma economia hoje, um problema amanhã...

Falando em terceirizar, estão terceirizando tudo, menos os eventos. Não entendi direito. Escuto por aí que a Prefeitura vai cuidar do Carnafolia, que será responsável pelo evento. Mas o Poder Público não tem mais nada para se preocupar? Evento é coisa para “estar licitando” – honestamente e de forma transparente, é claro. Deixem isto para quem sabe, talvez alguma Associação do município. Que se preocupem com o andamento das coisas que afetam o dia-a-dia da população, esta é a função primária dos gestores públicos.

Mas eu não quero ser injusta. Ouvi um discurso bastante acalorado do nosso Prefeito no evento do Natal Encantando. Raros gerúndios, muito assertivo, todo cheio de elogios para todos os nomes da Prefeitura e alguns da Câmara de Vereadores. Ainda não descobri se ele estava alegre ou irado. Chegou ao ponto de dizer que vamos desbancar o Natal de Gramado! Que aquele (mega) evento era só o começo! Caramba! Imagina! Já vi Joaçaba com as mesmas calçadas que existem em Gramado, com a mesma estrutura de atendimento ao turista! Mas daí, meu caro, quem usa o gerúndio sou eu: Do jeito que está?! Vai sonhando... Vai sonhando...

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