18 de jan de 2011

O ninho vazio...

(publicado no Jornal Cidadela em 14/01/2011) 

“Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.”
(Gibran Khalil Gibran )

Durante toda minha vida de mãe usei estes versos como uma espécie de mantra. Eles sempre foram a fonte de energia para que eu deixasse minhas pequenas passarem férias ou feriados longe de mim. Filhos de pais separados aprendem logo que o ninho não é o único ou o melhor lugar dos seus mundos, há outros ninhos, melhores, piores, diferentes.

Pensando sobre o que escreveria para vocês – tornei este meu compromisso como algo de importante, de valor, que me faz bem e que espero, pelo menos, entretê-los – lembrei que faz alguns dias que Gibran tem sido meu companheiro. Seus versos voltaram à tona dos meus devaneios maternos: Agora sim o ninho deverá ficar vazio de vez, agora sim é hora de eu internalizar a lição de que elas não são minhas...

Lembrei que estamos em meados de janeiro e que muitos pais compartilham dos mesmos sentimentos que eu: filhos abrindo asas, alçando novos vôos. Resultado de Vestibular muitas vezes é uma espécie de segundo parto, bem mais dolorido. Eles não vêm para o nosso peito, eles se vão... E por vezes para tão longe... Longe demais até! Eles com um universo inteiro pela frente, nós com um nó no estômago, tentando sermos fortes.

Algumas pessoas amigas questionam a minha “coragem” por deixá-las ir tão cedo. Confesso que não sei se a palavra que elas realmente gostariam de usar é esta ou se, por educação, não usam “irresponsabilidade” ou “loucura”. Eu as entendo, também não saberia dizer onde começa uma e termina a outra. Mas de uma coisa eu tenho certeza que todos nós que estamos nesta situação queremos o melhor para eles. Se estiverem indo é com votos de muitas felicidades.

De que adianta prendê-los? Estarão ao nosso lado e com a cabeça em outros mundos. Jovem sonha, jovem tem desejos. Que bom que é assim, já fomos iguais a eles um dia. Quem teve em seus pais o “arco” que os lançou para a vida sabe do que estou falando. Faz parte da história, as novas gerações precisam e devem sempre estar um passo adiante de nós. Eu me esforço, quero vê-las sendo mais do que eu sou. Meus netos, os quero melhor que elas... Faz parte...

E nós pais como ficamos? Fizemos nossa parte, os deixamos partir. E nós?! Silêncio em casa; podemos assistir ao telejornal noturno sem alguém insistindo em nos pedir ou contar algo. Nos quartos tudo arrumado, nenhuma meia suja debaixo da cama, nenhum amontoado de apostilas abertas dividindo espaço com pacotes de biscoitos. Nem precisamos mais compartilhar das mesmas músicas! Velhos CDs voltam para os tocadores...

E daí?! E o vazio? Vazio tão grande que enche o ambiente! É nesta hora em que a sensação de ninho vazio nos domina é de temos duas opções: ou afundamos em devaneios e meio que vivemos mimetizando as vidas deles, ou aproveitamos a segunda grande chance que a vida nos deu e enfiamos de vez a cara em nossos sonhos que por anos ficaram em “stand-by” por nossas asas estarem muito ocupadas com nossas crias.

Eu vou optar pela segunda, não que não tenha a intenção de usufruir muito das aventuras que elas me compartilharão, quero estar a par de tudo – e com a tal da internet agora, isso ficou instantâneo – mas quero ser alguém que também terá muitas novidades para contar. Se bobear a gente ainda vai rir muito desta nova fase. Elas de lá, eu de cá. Como será bom compartilhar!

Pais amigos que estão no mesmo barco que eu, vamos agradecer a oportunidade que estamos tendo de sermos instrumentos ns mãos do Criador. Vamos fazer nossa parte, vamos seguir a maravilhosa lição que Gribran nos deu e torcer para que nossos filhos um dia possam dizer aos seus filhos que eles têm a quem puxar.

As lágrimas? Estas serão sempre nossas companheiras, que sejam, pelo menos, doces... Das doces lembranças... Das doces notícias...

Um comentário:

  1. Oi... Gostaria de falar que admiro muito o que vc faz pelos animais!
    Eu nem sei exatamente como descrever a minha gratidão por vc, vc faz coisas incriveis e é ótimo saber que existem pessoas como vc no mundo!

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