21 de fev de 2011

Nós, ainda, os “jecas”...

(publicado no Jornal Cidadela em 18/02/2011)

Terça-feira o Cineclube Miguel Russowsky apresentou mais um filme do Mazzaropi – A Tristeza do Jeca – um filme de 1961, mas de uma atualidade que me deixou perplexa. Fiquei confusa, não sei se o filme é atual ou se a forma de fazer política é que parou no tempo. Pelo menos nestes rincões de Santa Catarina em que vivemos tudo aquilo apresentado no filme é o retrato do que vemos aqui. Eu até gostaria de poder dizer que o filme é uma caricatura, mas nem isso! Somente o “jeca” do interior de São Paulo é substituído pelo “colono” catarinense. E para por aí...

Para os amigos que ainda não conhecem a história possam se situar segue abaixo a tese de graduação "Vida e Morte do Jeca Tatu - um estudo sobre Mazzaropi" de Maria de Lourdes Vinhas Nilsson, Dalmo José de Aguiar e Wagner José Freitas de Oliveira. Peço que leiam com atenção, já pelo texto podemos reconhecer algumas pessoas bem próximas a nós, no filme isto está escancarado. Fica a sugestão, serve de entretenimento e alerta.

O tema versa sobre disputa política.
O Jeca mora na fazenda do Cel. Felinto junto com sua família e outros colonos. Como se aproximam as eleições, os coronéis da região disputam a simpatia do Jeca que é um líder entre os colonos.
A disputa para prefeito se dá entre os coronéis Felinto e Policarpo. Mas é o coronel Bonifácio quem faz a campanha eleitoral para o coronel Policarpo, um senhor de aparência frágil e mais velho.
Em nome dessa proteção, Bonifácio arma uma estratégia de campanha, onde afirma que a plataforma política de seu candidato é a defesa do homem do campo. Para poder conseguir atingir este objetivo faz uma visita ao Jeca enfatizando que eles não conhecem a psicologia do homem do campo e solicita sua ajuda. No entanto, Jeca não quer trair a confiança do coronel Felinto, dono da fazenda onde mora.
Para atrair eleitores, Bonifácio organiza um rodeio na cidade e convida Jeca e o povo. Jeca comparece com seus amigos e carrega à frente uma placa onde está escrito, de um lado, "Viva o coronel Felinto!", e do outro, "Viva o coronel Policarpo!" Assim, vai virando a placa conforme a necessidade.
Percebendo a resistência do Jeca, Bonifácio pede a seu filho que veio do Rio de Janeiro para namorar e noivar a filha do Jeca, moça bonita.
No rodeio, os políticos com muita perspicácia, envolvem Jeca em um comício e tramam um jogo de palavras onde o levam a declarar em voz alta que está ao lado deles, que apóia o coronel Policarpo. O jogo de palavras é feito com muita graça e inteligência.
Após conseguirem demonstrar aos presentes que têm o Jeca ao seu lado, o filho do coronel Bonifácio pede a noiva em casamento. E após o consentimento do caipira o noivo faz um discurso afirmando que o cel. Policarpo "é o único homem capaz de governar a nossa santa cidade. E essa união vem consolidar os nossos laços, os nossos ideais e a nossa vitória final."
O Jeca foi envolvido pela astúcia dos políticos, mas os amigos perceberam que todos entraram em confronto com o Cel. Felinto.
O Cel. Felinto fica furioso com a parceria de seu empregado com seu inimigo político e ameaça expulsá-los da fazenda se o outro lado vencer. Sua esposa, uma portuguesa de nome Manuela tem um plano de raptar o filho do Jeca. Isto para manter Jeca e seus amigos do seu lado. E assim o fez. O menino Toninho é raptado.
Jeca e sua mulher vão à casa do Cel. Felinto e em meio a uma discussão o caipira diz: "Isso é verdade. Não é porque o Senhor tem dinheiro que vai fazê o que quer de nóis, não!" Ao que o Cel Felinto responde: "Mais uma razão pra vocês trabalharem pela minha vitória. Depois das eleições você volta a vê seu filho de novo."
As eleições ocorrem num clima de suborno.
Os cabos eleitorais de ambos partidos compram eleitores. O cel. Policarpo ganha as eleições com 579 votos e seu rival fica com 575 votos.
Enraivecido com a derrota o Cel. Felinto expulsa todos os trabalhadores de suas casas. O Cel. Felinto não devolve o filho de Jeca, que pensa que a criança foi comida por uma onça, mas o menino consegue fugir e procura seu pai.
Jeca e os outros colonos vão em caravana pela estrada para a fazenda do cel. Bonifácio, pois pensa que sua filha será a nora do tal coronel.
Ao chegar à fazenda, é mal recebido por Bonifácio que diz que não haverá mais casamento porque seu filho havia voltado para o Rio de Janeiro. Manda Jeca e todos os empregados embora.
Mas o cel. Policarpo, o novo prefeito, observa toda a injustiça e se coloca contra o seu articulador político. Mostra-lhe o erro que está cometendo com o povo que o elegeu. Faz o cel. Bonifácio calar a boca senão vai executar a sua fazenda, deixando-o na miséria.
Arruma emprego para todos em sua fazenda e sai junto com o povo pela estrada. O filho do Jeca encontra o pai e a filha acerta casamento com o antigo namorado.
O filme acaba com todo pessoal andando com os pés no chão carregando suas coisas no ombro rumo ao outro serviço que, ao que parece, será mais humano.

Vão dizer que não viram semelhança?!

Em nossa região, via de regra, o embate político está polarizado em duas frentes uma mais nociva do que a outra; ambas com o único intuito de manter a hegemonia. São famílias, partidos, grupos empresariais, vêem na política(gem) o meio para conquistar o que desejam. E assim estão por décadas! Se preciso for, criam-se municípios nanicos. Os grupos, cada vez mais fortes, sentem que é melhor dividir o poder do que correr o risco de angariar um forte inimigo. E assim nasceu Herval d’Oeste, Ouro, Luzerna e por aí vai...

Por vezes fantoches são usados para tornar a candidatura mais “deglutível”, os verdadeiros articuladores não se fazem aparecer. Bancam campanhas (tudo muito discretamente), trabalham por debaixo dos panos. Depois agem como ventríloquos e deitam e rolam. Uns agem diretamente na máquina pública, outros se utilizam dela para evitar a concorrência e manter o poder (ou os baixos salários), e assim as cidades vão minguando a olhos vistos.

A defesa dos mais fracos é a constante nos discursos de campanha, tudo o que eles querem é “melhorar a vida das pessoas”, são almas abnegadas que abrem mão dos próprios interesses para atender os anseios daqueles que não têm condições de falar por si. Passadas as eleições estes nobres homens são acometidos por uma “amnésia” que dá nojo. Eu já devia ter aprendido que “político é tudo igual, promete na campanha pra não cumprir depois”, afinal esta foi a lição que me foi dada por um deles. Eu estou aprendendo, seria tão bom que o povo também se antenasse!

Tivemos até o rodeio com pedidos de aplausos ao político “bem feitor”! Não era um comício porque este abuso a lei eleitoral veda, mas sempre se dá um jeitinho com a ajuda dos companheiros de partido. Fica parecendo uma festa para a cidade, mas não passa de ferramenta para esta política suja que insiste em se manter entre nós. No filme quem bancou foi um coronel fazendeiro, aqui foi o povo idiota que paga os impostos. Mas vai tentar explicar isto para o populacho? Todos aplaudiram e se bobear ainda votaram no coronel, digo, político, afinal “ele trouxe uma festa pra gente”!

O filme mostra capatazes fazendo pressão sobre os empregados das fazendas, por aqui vimos chefes de empresas públicas ou privadas “pedindo” aos subalternos que adesivassem seus carros particulares. Nos estacionamentos era a coisa mais linda de se ver, parecia que ali funcionava o comitê eleitoral! E ouvir do pobre funcionário que ele mesmo não votaria no candidato, mas que pela paz no ambiente de trabalho se sujeitava a aquilo, é de chorar de raiva!

Quanto ao rapto do garotinho... Quem não ouviu conversas de pé de ouvido que fulano ou beltrano é perigoso, que se precisar fecham ruas e ameaçam eleitores? E eleitores que se pelam de medo desde ou aquele político porque ouviu falar que se precisar ele manda dar uma surra em quem atrapalhar seus planos? E eu que recebi um e-mail me aconselhando a tomar cuidado porque na cidade há pessoas que podem fazer mal as minhas filhas por conta do que escrevo. Parece surreal isto tudo em pleno século XXI...

As eleições do filme ocorreram num clima de suborno. E aqui?! O que mais eu vi foi gente perguntando quanto receberia pra votar neste ou naquele político. Político e eleitor corrupto, vão esperar que tipo de governo saído desta relação? Ser pago para fazer propaganda de alguém que você nem compartilha os ideais é outra vergonha. A profissionalização dos cabos eleitorais é uma das chagas do sistema, por dinheiro vende-se qualquer idéia. E há os que em frente às urnas distribuem santinhos “recheados”... São os votos de última hora. Corrupção nefasta, nojenta, que avilta ainda mais os pobres “jecas”.

E para finalizar, que já cansei os amigos, lá estava eu com cara de idiota me vendo na pele do Jeca! Só não joguei dos dois lados, não temia um ou outro lado, mas pedi voto, me envolvi no que não era da minha alçada. Na época era apenas uma cidadã sem nenhuma atuação política. O filme terminou com o Jeca indo de braço dado com o “fantoche” que se insurgiu contra seu “criador”. Quero acreditar que dali em diante ele tenha começado e entender um pouco mais dos políticos e suas artimanhas... A “jeca” aqui aprendeu a lição e está estudando muito para não cair numa esparrela de novo.

Um comentário:

  1. Aqui temos a política partidária coronelista. Muito visada e parece que é só isso as maledicências humanas, mas, e a política comercial, industrial e judiciária hummm é um leque bem maior.

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