16 de mai de 2011

Ao amigo Sr. Ruy:

(publicado no Jornal Cidadela em 13/05/2011)

Hoje eu vou me dar ao direito de usar este espaço para homenagear um querido amigo e leitor assíduo deste meu espaço semanal, Sr Ruy Klein Hommirch, que partiu para a pátria espiritual na noite de terça-feira. São 13:23h da quarta-feira e qualquer outro assunto que por ventura tentasse desenvolver não sairia a contento, nem para mim, nem para aquele leitor crítico que toda a vez que me encontrava dava seus “pitacos” nos assuntos expostos.

Não lembro direito como conheci o Sr Ruy, acho que foi por intermédio da Mônica, sua filha mais nova e uma grande amiga minha. Lembro de ter sentado por tardes inteiras vendo antigas fotos e “bebendo na fonte’ da história de Joaçaba. Seu acervo de imagens e recortes de notícias antigas era algo fora do comum. A organização com que mantinha as fotos (quase a maioria com legenda na verso) fazia com que qualquer um tivesse condições de entender a linha do tempo, de uma vila empoeirada para uma cidade.

Ele foi um dos grandes personagens desta história, sua passagem pela Prefeitura deixou marcas que a todo o momento vemos pela cidade. Foi o Prefeito mais novo que Joaçaba elegeu, com apenas 32 anos mudou o rumo da cidade para melhor. Apesar de novo, mostrou garra e determinação. Ou seria teimosia de gaúcho? Seja lá como for este “forasteiro” veio para fazer a diferença.

Não era cidadão nato de Joaçaba, era gaúcho de Soledade. Quando eu o conheci soube que carregava uma mágoa lá no seu íntimo: nunca fora lembrado para receber o título de cidadão honorário. Orgulhava-se sem cerimônia ao falar de tudo o que fizera pela cidade, encolhia-se ao se ver esquecido pelos mais novos. Ele era um exemplo de que para trabalhar por Joaçaba nascer aqui não é condição “sine qua non”, basta amar a cidade. E foi ele uma das pessoas que me mostrou bons motivos para amá-la também.

Em dezembro de 2008 ele recebeu o tão sonhado título de cidadão honorário. Seu discurso emocionou a todos que se fizeram presentes àquela cerimônia. Sem texto escrito deixou vir à boca todo o sentimento e ressentimento que tinha em seu coração. Eu entendi cada palavra, sabia da importância daquele momento para ele. Confesso que temi pelo seu coração. Creio que foi o dia em que vi o Sr. Ruy mais feliz. Sim, dos dias que convivi com ele aquele fora o mais feliz.

Em 2008 estive muito próxima a ele, foi no tempo da campanha. Política era uma de suas grandes paixões. Falava do passado sempre preocupado com o futuro. Via com preocupação os dias vindouros, mas torcia pela cidade, esperava que Joaçaba tivesse tempos áureos como no passado. Não se conformava com o que via à sua volta, ansiava por melhorias. Algumas vezes senti que se ele pudesse (se a lei e a saúde lhe permitisse), pegaria as rédeas e começaria a dar ordens aqui e acolá, trazendo assim Joaçaba para os trilhos novamente.

Um dia eu perguntei sobre seu afastamento da política, como uma pessoa que ama tanto este meio pode ter ser afastado. A resposta foi acompanhada de um traço de tristeza: “Em política há mais com o que se decepcionar do que com o que festejar. Um dia você vai entender...”. Optei por dar o assunto por encerrado, não seria eu quem iria abrir aquela ferida tão doída. Contudo não se passaram três anos e já bastou para eu entender aquela resposta em sua essência. Tive a confirmação num encontro casual em que falávamos dos dias atuais. Ele mesmo me puxou pela memória e falou sobre a conversa. Lembramos do que foi dito sobre “decepcionar-se”...

Nosso último encontro foi no Sarau Literário que teve no Teatro. Ele recitou (ou tentou bravamente recitar) o Navio Negreiro. A memória já falha entrecortou o gigantesco poema, mas estava lá. Onde houvesse Cultura ele sempre gostou de estar. No final da noite conversamos descontraidamente sobre tudo e eu expus meu novo objeto de estudo: Paulo Stuart Wright. Sabia que haviam sido contemporâneos, queria ouvir dele sobre desaparecido político.

“Ih! Eu tentei colocar ele como meu Secretário, mas não deu certo.” Lógico! Eu sabia que era pouco provável que esta dobradinha desse certo, um esquerdista no governo de um Prefeito de extrema Direita, há paradoxo maior que este? Era justamente sobre isto que eu queria saber; como Sr. Ruy via a figura de Paulo Wright? Marcamos um café, ou melhor, uma tarde inteira para conversarmos sobre o assunto. Com o Sr. Ruy era assim, nada de conversas e visitas rápidas. Pessoas com conteúdo demandam tempo. Ficou para a quarta-feira seguinte.

Pouco tempo depois a Mônica me telefona avisando que ele fora encaminhado para Chapecó, mas que pediu para me informar que só haveria um adiamento na nossa conversa. Eu esperei, acompanhei de longe sua luta. Recebia notícias daqui e ali, torcia por ele. Quantas vezes ele me disse que não e entregaria tão facilmente? Perdi as contas. Precisou o destino literalmente lhe dar um tombo para que ele caísse.

Agora estou aqui escrevendo e lembrando dos bons momentos que passamos juntos. Lembro de como eu pegava no pé dele dizendo que em algumas fotos antigas ele parecia um galã de cinema, mas que em outras era “escrito” o Amigo da Onça, aquela personagem da revista O Cruzeiro. Ele ria, era inegável que havia semelhança! Daí ríamos mais ainda pelo fato de décadas nos separarem e isto não ser motivo de não termos assunto para conversar.

E o café foi adiado. Fica para a próxima, querido amigo...

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