1 de mai de 2011

O trabalho pela vida – não a vida pelo trabalho

(publicado no Jornal Cidadela em 29/04/2011)

Quando você estiver lendo esta coluna o evento cujo título tomei emprestado para a minha coluna já deverá ter ocorrido, são as barreiras da imprensa escrita, esta que insiste em lutar para se manter (e graças a Deus tem vencido as batalhas). Fazia dias que vinha matutando de escrever algo sobre o assunto, coisa de um mês, quando meus rins tornaram a me lembrar que foram maltratados em tempos passados. Eles fazem companhia ao meu ombro que também foi vítima de uma relação de trabalho não muito saudável.

Quando era criança acreditava ser glamuroso trabalhar em banco, as mulheres sempre arrumadas e com a maquiagem em dia por conta do ar condicionado e do ambiente sóbrio dos escritórios. Andavam de salto alto e estavam sempre bonitas. Eu achava o máximo ir ver minha mãe trabalhar, amava o ambiente. Naquela época todos ficavam às voltas com papéis, era bonito de ver e bom de se sonhar com um futuro parecido...

Anos depois a vida me colocou dentro de um banco. Já não eram mais os papéis que nos cercavam, no máximo uma tela fria e um teclado para a operacionalização das tarefas. Papel até havia, mas era coisa pouca. Todos os dias usando sem cessar a mão direita, fazendo uso das teclas numéricas. Todos os dias com hora para sentar, mas sem hora para ir ao banheiro. Se não pode ir ao banheiro, melhor nem tomar água. Para dar conta da pressão o jeito era economizar nas atividades “supérfluas” e assim os dias iam se passando.

Com o passar do tempo as idas e vindas aos médicos passaram a ser constantes. As guias que encaminhavam para a fisioterapia ou para o afastamento da atividade eram ignoradas e colocadas no fundo da bolsa. Não se podia cogitar em perder o emprego quando se precisava dele para sustentar as filhas. Afastamento só quando o trato urinário resolvia pifar e a internação era compulsória. Nunca esqueço que numa das receitas veio a seguinte instrução: “beba água, mesmo durante o expediente”. Eu ri. Ou não bebia por não ter tempo, ou não bebia para não perder tempo.

Depois de alguns anos com um ritmo alucinante entre banco (com rotinas de mais de oito horas diárias – sim, os bancários trabalham bem mais do que o tempo que a agência fica aberta) e uma faculdade em fase final cheguei a um nível de estresse que desaprendi a ler. Olhava pra a tela, mas nada de conseguir decifrar o que nela estava escrito. Nove meses afastada. Dormi tudo o que não havia feito nos últimos cinco anos. Refleti sobre a importância de ter um trabalho e não ter mais qualidade de vida. Na volta pedi a conta.

Sei que me alonguei falando de mim, mas não podia me furtar de compartilhar a minha experiência com o trabalho que adoece. Na minha vida isto são águas passadas. Apenas volta e meia uma dorzinha aqui outra acolá. Nada que preocupe, apenas meras lembranças de um passado que não tenho saudades. Hoje eu estudo para evitar este tipo de coisa, até estou freqüentando um curso de CIPA para me inteirar melhor sobre o assunto. O curso trata mais de acidentes, mas já aprendi que muitos deles ocorrem pela fadiga do trabalhador. Uma coisa leva à outra.

Uma vez ouvi um empresário falando de seus funcionários; na realidade estava me relatando uma discussão que teve com um deles. Lá pelas tantas ele conta que disse para um dos moços: “se não está satisfeito, vá procurar trabalho lá na ...” (mencionou o nome de uma agroindústria bastante famosa). Ele ponderou que pagava “tudo nos conforme”, e que não ia tolerar abusos. Pra mim serviu a observação feita sobre ir para a outra empresa. Sabia do que ele estava falando. Este tipo de indústria é famoso pela produção de pessoas aleijadas física e mentalmente. Venho constatando isto pelo o que tem me chegado às mãos. Saúde do trabalhador tem sido um dos assuntos que têm me atraído nos últimos tempos.

Se os leitores assistirem ao documentário “Carne, Osso” - que trata do duro cotidiano de trabalho nos frigoríficos brasileiros de abate de aves, bovinos e suínos - verão os seguintes relatos:

Danos físicos e psicológicos - “Cerca de 80% do público atendido aqui na região é de frigoríficos. Ainda é um pouco difícil porque o círculo vicioso já foi criado. O trabalhador adoece e vem pro INSS. Ele não consegue retornar, ele fica aqui. E as empresas vão contratando outras pessoas. Então já se criou um círculo que agora para desfazer não é tão rápido e fácil” – Juliana Varandas, terapeuta ocupacional do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) de Chapecó (SC).

Ritmo frenético - “A gente começou desossando três coxas e meia. Depois, nos 11 anos que eu fique lá, cada vez eles exigiam mais. Quando saí, eu já desossava sete coxas por minuto” – Valdirene Gonçalves da Silva, ex-funcionária de frigorífico.

Reclamações curiosas - “Tu não tem liberdade pra tu ir no banheiro. Tu não pode ir sem pedir ordem pro supervisor teu, pro encarregado teu. Isso aí é cruel lá dentro. Tanto que tem gente que até louco fica” – Adelar Putton, ex-funcionário de frigorífico.

Problemas com a Justiça - “O trabalho é o local em que o empregado vai encontrar a vida, não é o local para encontrar a morte, doenças e mutilações. E isso no Brasil, infelizmente, continua sendo uma questão séria” – Sebastião Geraldo de Oliveira, desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da 3ª região (TRT-3).

Pujança econômica - “Esse é um problema de interesse do conjunto da sociedade, não é só de um setor. O Estado tem que se posicionar. Não se pode fazer de forma tão impune ações que levam ao adoecimento e à incapacidade tantos trabalhadores” – Maria das Graças Hoefel, médica e pesquisadora.

Melhorar é possível - “Basicamente, é conscientizar essas empresas para reprojetar essas tarefas. Introduzir pausas, para que exista uma recomposição dos tecidos dos membros superiores, da coluna. Em algumas vai ter que ter diminuição de ritmo de produção. Nós estamos hoje chegando só no diagnóstico do setor. Mas as empresas ainda refratárias a esse diagnóstico” – Paulo Cervo, auditor fiscal do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Pelo visto os processos de trabalho precisam ser revistos em todas as atividades econômicas. De nada adianta produzirmos excelentes resultados econômicos se deixamos a desejar no âmbito da saúde e social. O trabalhador precisa produzir, mas ele precisa ser alguém mais do que uma mera ferramenta desta ou daquela empresa. Ele deve trabalhar para viver e não viver para trabalhar. Estas pessoas são pais, mães, filhos... Estão muito distantes da perfeição e frieza das máquinas...

Que este dia 28 de abril - que passou a ser lembrado como dia em memória às vítimas das más condições de trabalho a partir de uma explosão ocorrida no dia 28 de abril de 1969, na mina de Farmington (Vírgínia/EUA) onde morreram 78 mineiros – sirva de “start” para mudanças emergentes nos processos de produção das riquezas da nossa nação. Aos empregadores não basta apenas agir por conta das ações dos órgãos fiscalizadores, é urgente a tomada de consciência de que do jeito que está não dá para ficar...

O evento da noite de quinta-feira é um dos primeiros passos. Que esta caminhada esteja apenas começando, pois ainda sonho com um Centro de Referência em Saúde de Trabalhador – CEREST - aqui na nossa região... Aí sim saberemos quem está, literalmente, dando a vida pelo trabalho...

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