23 de set de 2011

Nós mulheres:

(Publicado no Jornal Cidadela em 23.09.11)

Esta semana nós mulheres estamos com tudo e não estamos prosas. Na terça nos reunimos no teatro de Joaçaba para discutir nossas questões: atuação política, acesso aos direitos, respeito à igualdade e tudo o mais que cerca nossas vidas. Na quarta-feira cada uma de nós se sentiu um pouco “Dilma” ao ver que a primeira mulher a discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU era uma mulher como nós, brasileira.

Por certo estamos nos conscientizando e nos mobilizando, afinal se nós mulheres não lutarmos não serão os homens que levantarão nossas bandeiras. Na “real” eles bem que torcem para que continuemos comendo a asa do frango e deixando o resto para o marido e filhos. Quem esteve no encontro sabe por que estou falando isso, quem não sabe procure se informar. Em suma foi o retrato da institucionalização à submissão em forma de discurso elogioso que foi ouvido naquela manhã...

Na terça alinhavamos várias iniciativas tais como a mobilização para a implantação de Delegacia Regional da Mulher, a implantação dos Conselhos Municipais dos Direitos das Mulheres, a criação de um Fórum Permanente de Debates, entre outras tantas que vão mudar as vidas de muitas de nós.

E para fechar a semana abro minha caixa de e-mails e descubro um excelente texto escrito pela minha filha que mostra, do “alto” dos seus 17 anos, que já sabe bem qual seu espaço neste mundo:

Enxergar as semelhanças para garantir a Igualdade:

Tratadas como seres sagrados, as mulheres já foram idolatradas em sociedades tribais por estarem diretamente ligadas à fertilidade. Em um mundo originalmente matriarcal, é complicado entender como o homem reverteu essa situação, reduzindo as mulheres a um simples adereço a sua vida, dando-lhe filhos e servindo-lhe.

Nesse novo caráter que foi designado à mulher, cabia a ela ficar em casa cuidando dos filhos e dos afazeres do lar, vivendo à sombra de seus maridos. Não gozavam dos mesmos direitos que os homens, como votar, trabalhar fora de casa, estudar ou até mesmo participar das forças armadas.

Questiona-se se o simples fato de terem nascido com uma diferença biológica possa privar as mulheres de uma participação igualitária na sociedade, como se por poderem gerar filhos isso as torne inferiores.

Apesar de muitos estudiosos apontarem, sem certezas, que o homem e a mulher têm comportamentos e características psicológicas diferentes, essa separação só pode ser dada por atributos físicos em seus sistemas reprodutores. Ambos são feitos de matéria orgânica e possuem sentimentos, porém a mulher foi por muito tempo tratada como inferior, frágil e incapaz.

Nota-se facilmente uma visão distorcida sobre o sexo feminino adquirida durante o período romântico, quando mulheres eram idealizadas como intocáveis e frágeis. Por mais que houvesse essa “devoção”, elas nunca se igualariam ao homem no modo de vida da época. Estavam destinadas a ficar em seus lares e seguindo os padrões ditados por uma sociedade patriarcal, situação que se estendeu por séculos.

Cansadas de suas vidas monótonas, as mulheres sentiram então a necessidade de realizar novas atividades. Poucos países possuíam escolas que as permitiam como alunas e era raro vê-las no meio artístico. Só passaram a ter espaço no mercado de trabalho a partir do período de guerras, pois precisavam substituir os homens no cenário fabril.

Na década de 60 o grito de independência foi dado e surgiram vários movimentos feministas que buscavam por direitos ainda não conquistados. Elas tomaram espaço na sociedade e construíram uma imagem forte da mulher até então desconhecida. Até mesmo o vestuário feminino modificou-se, dando espaço para roupas mais curtas que denunciavam o anseio de quebrar as regras estipuladas pelos homens.

Apesar de todas as barreiras que estas mulheres passaram para garantir os direitos femininos de hoje, houve uma banalização desta “liberdade”. Surge uma geração de mulheres conformistas que se contentam em viver em função de sua aparência. A exposição de seu corpo foi transformada em ferramenta comercial. Hoje uma bela silhueta garante a venda de cervejas, carros e desodorantes masculinos. Além disso, na programação televisiva aberta, principalmente em novelas, o maior estereótipo feminino encontrado são mulheres superficiais, exageradas ou até vulgares, uma caricatura de muito mau gosto que é facilmente engolida pelas próprias espectadoras.

Com base nessa inversão de valores, a mulher novamente perdeu sua credibilidade. Numa época em que já deveriam estar em total pé de igualdade com os homens, ainda recebem menores salários, são tratadas como objetos e como fonte de prazer. Como resultado destes preceitos machistas, muitas mulheres sofrem abusos em todo tipo de ambiente e ainda são vítimas de violência do lar e sexual. Patrões que se acham no direito de ultrapassar limites; maridos que agridem suas mulheres ao serem contrariados; homens que violentam moças por estarem “usando vestes inadequadas” ou terem “se insinuado”.

Há ainda uma grande frente de feministas ativas na militância que batalham para que não haja uma regressão nos avanços até agora obtidos e que tenta reverter o valor errôneo empregado às mulheres da atualidade. Essas guerreiras são a esperança de que a sociedade entenda, não as diferenças, e sim as semelhanças entre os gêneros. Só será possível atingir um ponto de igualdade entre eles quando o ser humano for capaz de enxergar o outro como ser de carne e espírito como outro qualquer.

Camila Vieira Berka, 17 de setembro de 2011.

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