14 de out de 2011

15.O (lê-se: quinze ó):

(Publicado no Jornal Cidadela em 14.10.11)

Estou teclando estas minhas idéias dentro do carro, voltando de São Paulo. Normalmente é nestas horas que minha cabeça fervilha e que formulo minhas teses, sejam elas mirabolantes ou não.

Toda vez que vou para aquela cidade volto com a cabeça a mil, costumo aproveitar cada minuto em contatos com pessoas que fazem a diferença. Desta vez não foi diferente, me embrenhei nos movimentos sociais que agora levam o nome de “Coletivos”. Conheci pessoas, participei de debates, aprendi muito e vi que algo grande está para acontecer em nosso país a semelhança do que vem acontecendo na Espanha, Grécia, Líbia, Estados Unidos: há um movimento questionando muitas das coisas que vemos por aí no mundo afora...

Não ouvi nenhum discurso de extremista, apenas a vontade de que o modelo atual seja repensado. Partidos estão fora. A única referência a eles foi no sentido de que todos estão preocupados com a bipolarização que está ocorrendo. De um lado o PSOL e seus assemelhados forçando um movimento de extrema esquerda, do outro o PSDB e seus iguais se articulando para um novo “golpe” mais ou menos nos moldes de 1964. No meio disto tudo um grupo pensante que tem a exata noção do perigo destas duas forças tão antagônicas e ao mesmo tempo tão nefastas para a Democracia.

Na sexta-feira pela manhã acompanhei minha filha em um debate que ela participou na AllTV onde tive a grata oportunidade de conhecer alguém que já sabia de ler e de ouvir falar: Marcelo Zelic, vice-presidente do Movimento Tortura Nunca Mais. Em nossa conversa o nosso Paulo Stuart Wright foi lembrado, ele é referência para estes estudiosos que lutam pela causa dos nossos ativistas pretéritos, mas também pelos os que nos dias de hoje ainda sofrem; sejam os encarcerados, sejam os que se mobilizam em lutas sociais.

À noite um grupo se reuniu na sede do “Tortura Nunca Mais”, mas por uma questão de compromisso não relatarei muitas das coisas que foram ditas ali, só posso adiantar que há no Brasil quem já tenha se apercebido que algo não vai nada bem no mundo, que está mais do que na hora de nos unirmos numa comunidade global no sentido de garantir o futuro das novas gerações. Isto passa pela política, pelo meio ambiente, nada escapa aos olhos deles.

Aproveito este meu escrito para antecipar que nos próximos dias o Brasil presenciará uma revolução diferente, sem armas, sem um grande líder. Algo que nasceu do povo e de seus descontentamentos. Nós também teremos nossa “Ocupa Wall Street”, está tudo articulado. Aqui terá outros nomes: Acampada ou 15.o Na verdade este último é um nome global tendo em vista qu4e a chamada para o movimento está se dando para todas as cidades do mundo.

Torço pelo sucesso desta empreitada, cada fala naquela reunião mostrava o verdadeiro ímpeto de que as coisas precisam mudar para melhor. Naquela ocasião pude presenciar que eles vivem seus discursos: nos computadores rodam sofwares livres, muitos são vegetarianos (o que prova que esta pode ser também uma posição política), e as decisões são decididas através do consenso. Não há um líder nem muito menos a vontade da maioria. O ponto é discutido até a exaustão, argumentos são ouvidos até o momento em que todos, se não se decidem, pelo menos se conformam.

Volto para Joaçaba satisfeita em ver que esta nova geração não se “deitou nas cordas”, tem a exata noção da sua importância e de que os anteriores apenas abriram o caminho. E nesta esteira seguem lutando por um mundo melhor, como o que se pode ver através do manifesta abaixo:

15 de outubro: a voz e a hora d@s indignad@s do Brasil e do mundo
Praças pelo mundo afora despertaram. Milhões de pessoas cansadas de autoritarismo, de democracias voltadas para os ricos, da farra do capital financeiro.
Há 500 anos, o Brasil é um país saqueado por políticos corruptos, ruralistas e empreiteiros gananciosos. O governo brasileiro segue dominado pela mesma elite que levou nosso país a um dos primeiros lugares em desigualdade social.

Temos muita coisa para mudar!
Precisamos construir uma nova forma de fazer política, queremos decidir os rumos em assembleias livres, amplas e democráticas. Queremos levar o debate a todas as praças do país.
Somos contra a política suja das negociatas, de um sistema que concentra o poder nas mãos de uma minoria que não nos representa, corruptos cuja dignidade está a serviço do sistema financeiro; queremos uma Democracia Real com participação do povo nas decisões fundamentais do país, muito além das eleições, essa falsa democracia convocada a cada quatro anos.

Transparência!
Não somos palhaços. A Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016 do jeito como estão sendo organizados servem apenas para os interesses dos ricos e de seus governantes. Estamos vendo uma verdadeira “faxina social” em nosso país, com a remoção de milhares de famílias das regiões onde serão os megaeventos esportivos. Os benefícios atingiram uma pequena parte da população. O sigilo do orçamento das obras da Copa, a flexibilização das licitações e a postura submissa do Brasil à Fifa e à CBF são um banquete farto aos corruptos.

Quem disse que queremos crescer assim?
Queremos um Brasil ecologicamente sustentável. Atualmente a política de desenvolvimento da matriz energética segue a devastação do meio-ambiente e do desrespeito aos povos originários, como a construção de Belo Monte, um atentado aos povos do Xingu. Não concordamos com o caminho que o governo federal está propondo - que prevê a construção de pelo menos mais quatro usinas nucleares até 2030 - no desenvolvimento de uma energia cara e não segura: Enquanto o Brasil segue com as usinas nucleares de Angra dos Reis, mesmo após a calamidade nuclear de Fukushima, há pouco incentivo às novas tecnologias energéticas sustentáveis, como a solar, eólica, de marés, para as quais o país possui enormes potenciais.

Equilibrado e para todos.
O agronegócio segue como um risco ao futuro. O desmatamento desenfreado, anistiado e estimulado pelo novo Código Florestal, segue transformando o Brasil numa grande fazenda de soja. Não há uma política séria de reforma agrária, de soberania alimentar e de preservação do meio-ambiente. Segue a destruição da Amazônia, o uso abusivo de agrotóxicos e a propriedade da terra cada vez mais concentrada.

Educar ou manipular?
Estamos fartos de que os meios de comunicação, que deveriam servir a população como ferramenta de educação, informação e entretenimento, sejam usados como armas de manipulação de massas, trabalhando para os mesmos políticos corruptos que deflagram o país em benefício próprio.

Vamos colorir as praças com diversidade!
Ainda sofremos discriminação pela cor da nossa pele, por nosso sexo ou orientação sexual, por nossa nacionalidade, por nossa condição econômica. Queremos colorir as praças brasileiras com a diversidade do nosso país, que precisa ser livre, digno e para todos. Devemos ocupar, resistir e produzir decisões e encaminhamentos democráticos, onde a colaboração esmague a competição e a socialização destrua a capitalização. Não temos a ilusão de resolver todos os problemas em poucos dias, semanas, meses. Mas teremos dado o primeiro passo.
Chegou o momento em que todas as nações, todas as pessoas se unem e tomam as ruas para dizer: Basta! É hora de assumir a nossa responsabilidade e o nosso direito a uma vida livre e justa. 15 de outubro: um só planeta, uma só voz.

(fonte: LEIA AQUI)

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