8 de out de 2011

Uns com tanto...

(Publicado no Jornal Cidadela em 08.10.11)

Numa noite destas perdi o sono, quando ouvi a chuva me veio à cabeça o fato de algumas pessoas  se desesperarem com isso. Por certo este meu sentimento vem da antiga cantiga que ouvia de minha mãe: “Para mim a chuva no telhado é cantiga de ninar, mas para o pobre meu irmão para ele a chuva fria vai entrando em seu barraco e faz lama pelo chão. Como posso ter sono sossegado...” (descobri agora que esta música tem nome: Balada da Caridade). Basta começar a chover para eu me lembrar dos desafortunados. E logo vem aquele sentimento de impotência e indignação...

Não é possível que as pessoas ainda não entenderam que se está sobrando de um lado é porque, na certa, esta faltando de outro. Uns com tanto e ainda na ânsia de ter mais. Alguns chegam ao ponto de acumular tanta riqueza que precisaria viver e morrer umas dez vezes para dar cabo da sua fortuna. Mas não, os avaros amam a riqueza e por ela vivem e morrem. Apesar de que eu questiono este conceito de viver deste tipo de gente, eles passam pela vida como espectros, não deixam nada de bom, só o que sabem fazer é contar dinheiro. Suas fortunas crescem na proporção inversa das verdadeiras amizades.

No dia dos pais fui almoçar com meu marido em um restaurantezinho simples da cidade, estamos longe das filhas, os telefonemas já haviam sido trocados pela manhã. Assim que me sentei percebi um senhor de idade avançada almoçando sozinho numa mesa. Bastou eu olhar para meu parceiro para ele ler meus pensamentos e ver que estava com o coração partido por conta da cena. De pronto ele respondeu: “Este aí é tão pobre que só tem dinheiro. Nem os filhos querem saber dele”. Foi a conta para eu ficar mais penalizada ainda.  Que opção triste essa de amar mais o “material” do que os laços afetivos!

Com a chuva lá fora me veio este contraponto: De um lado pessoas que encontram mais prazer em saber que possuem vários imóveis ociosos e uma incontável fortuna no banco do que em ver o sorriso de uma pessoa ao receber um auxílio. Nem falo só do financeiro, estas pessoas, via de regra, são mesquinhas até no amor. Não entendem que este é o tipo de coisa que quanto mais se dá mais se tem. Retêm tudo para si: dinheiro, afeto, câncer... Apoderam-se de tudo, até das doenças. E vêem a vida passar de suas sacadas, de seus apartamentos em prédios praticamente vazios...

Daí eu ando numa comunidade carente e vejo a disputa para ver quem coloca a música mais alta, vejo crianças descalças jogando uma bola rasgada, vejo senhoras sentadas nas soleiras das portas tomando o chimarrão do fim de tarde. E me pergunto: precisa muito para ser feliz? Não, creio que só é preciso do essencial, e para estas pessoas o essencial é muito pouco. São felizes, têm amigos, compartilham o pouco que têm com os estes amigos e vizinhos. Fazem festa na base da “vaquinha” (nunca terão, ao seu redor, bajuladores que só se interessam em ir à sua badalada festa de aniversário). Uns usam a expressão “Com pouco, mas com Deus”.

Nesta altura eu já não sei mais quem é o rico e quem é o pobre nesta história. Se “o que se leva desta vida é a vida que se leva”, e que “caixão não tem gaveta” fico na dúvida de quem realmente devo ter pena...



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