17 de dez de 2011

Calou-se O ZUMBIDO POLÊMICO DO MOSQUITO:

(publicado no Jornal Cidadela em 16/12/11)

Terça-feira passada fui chacoalha por uma notícia escrita no meu e-mail: “Bete! O Mosquito Morreu!”. Tremi, corri olhar nas redes sociais, era verdade. Foi encontrado morto em seu apartamento “na Palhoça”. Lá se foi o blogueiro mais polêmico do nosso estado... Cabeça a mil corri para descobrir se era “morte morrida” ou “morte matada”, afinal de contas ele colecionava desafetos (poderosos). Morte estranha: enforcamento. Suicídio ou assassinato até esta noite de quarta-feira, quando escrevo estas linhas nenhuma notícia concreta.

Não sou do tipo que bastou o sujeito morrer para virar santo. Amilton Alexandre possuía uma porção de defeitos. Fazia alguns meses que estávamos de relações cortadas, eu era contra a forma com que ele se expressava. Usava expressões que me incomodavam demais, muitas vezes se mostrava quase um fascista devido as aberrações que postava em seu Twitter. Mas tinha o seu valor, e por isso merece meu reconhecimento, denunciava sem medo os casos de corrupção que tomava conhecimento. Sempre que precisei estava a postos para garimpar alguma informação para mim. Chegou a recepcionar um ônibus de Joaçaba lá na capital...

Fez parte de um grupo que trabalha à margem da imprensa “limpinha”, era mais um “blogueiro sujo”; aquele grupo que trás à luz as informações que ninguém quer ou pode publicar devido a dever ou temer algo. Espero sinceramente saber que ele optou por seu fim, pois se as investigações levarem para outro caminho não saberia mais o que pensar do nosso momento atual... 

E para quem não conhecia o Mosquito segue uma entrevista feita com ele pelo blog “Olho da Foca”, publicada em 03 de novembro passado:

Arianna Fonseca: Como surgiu o Tijoladas do Mosquito?
Mosquito: A partir de um determinado momento comecei a escrever na internet através de um blog. Recebia muitas informações, muitas denúncias e o site acabou se tornando meio que uma referência, até criando polêmica, em defesa de certos assuntos que a grande mídia não cobre, ou não tem liberdade para por nos seus veículos. Muitas das matérias que publico no blog são oriundas de próprios jornalistas que tem dificuldade que seu trabalho vá à frente nos órgãos de imprensa. Por exemplo, a matéria que eu fiz sobre o estupro que vitimou uma menina em julho de 2010 em Florianópolis, que envolveu o filho do dono da RBS, quem me passou foi um próprio jornalista da emissora.

A.F.: O senhor se acha vítima de censura? Como lida com isso?
M.: Com certeza. Como faço muitas denúncias que envolvem políticos, normalmente inconformados com as críticas ou com o tom delas, procuram a Justiça para evitar que eu mostre as provas contra eles. Porque a medida que essas denúncias atrapalham os negócios, eles procuram interceder para que a Justiça faça essa censura. Mas eu tenho feito minha defesa e tenho recorrido à todos esses processos de dano moral. Eu devo ter uns 30 processos de políticos que realmente levam pra essa indústria de dano moral as críticas contundentes que eu faço.
Teve um suplente de deputado, Edson Andrino, que conseguiu na justiça o bloqueio dos meus domínios na internet. Tive que fazer outros domínios pro blog realmente não fechar. Os endereços que tenho hoje inclusive estão depositados fora do Brasil, que são tijoladas.net e o tijoladas.info. É uma maneira de exercer uma forma de censura contra meu blog, mas eu enfrento isso rotineiramente.

A.F.: Qual sua relação com o WikiLeaks?
M.: Tive muitos problemas em relação à hospedagem do meu site. A Folha de São Paulo, o Local Web cancelaram sem justificativa. Eu pagava muito, cerca de 500 reais pra deixar o blog no ar por causa do tráfego de informações que é muito pesado, eram muitos gigabytes em transferências de dados. Então um cidadão de Porto Alegre que tinha contato com o site do WikiLeaks na Suíça me ajudou e eu pude reportar o provedor dele em troca de passar informações que eu coletava. Mas hoje só tenho o contato de hospedagem mesmo.

A.F.: Antes de publicadas, as matérias passam por uma investigação jornalística?
M.: Tudo o que publico tem ou são provas que eu consigo ou é uma reprodução de um material que já foi publicado na imprensa que eu procuro manter mais informações do que colocado na mídia. Eu procuro saber, ter provas documentais. Tanto é que denúncias que eu fiz viraram ações no Ministério Público. Por exemplo, agora, eu fiz uma representação no Ministério Público para derrubar o Altamir Paes da SCGás. Eu recebi a informação e sabia que ele tinha vendido um imóvel da prefeitura de Otacílio Costa de uma empresa que o irmão dele era sócio. Foi condenado na Justiça e mesmo assim o governador insistiu na nomeação dele. Por fim, os promotores viram que aquilo era verdade, me deram um prazo e ele acabou sendo demitido.

A.F.: Como consegue as informações e como identificar se é verdade ou mentira?
M.: Recebo muitos telefonemas, e-mails, me mandam envelopes com documentos, me encontram na rua e conversam comigo. As fontes são as mais variadas: amigos, via internet mesmo, algumas denúncias anônimas. Eu procuro, nas anônimas, verificar todas as fontes, me preocupo em fazer quem me mandou o material entrar em contato comigo por telefone pra saber se aquilo é verídico. Pra isso tem um pouco de tino. Por exemplo, se não cita nomes, não tem prova nenhuma, daí eu não publico. Mas eu vou apurar, vou selecionar, vou ao local. Tem gente que faz denúncia pra prejudicar outra pessoa.

A.F.: Qual a credibilidade que o senhor passa com o blog para os leitores?
M.: Eu vejo muito essa credibilidade pelo twitter @tijoladas. Hoje tenho 5459 seguidores e a maioria são portais de imprensa do país inteiro, jornalistas… Então tudo que eu publico, tanto no twitter quanto no blog, chega às assessorias de imprensa e aos portais. E a credibilidade se dá a medida que as matérias que eu faço acabam virando notícias em jornais no outro dia. Tenho dado muito furo de reportagem.
Por exemplo, hoje recebi a informação que a prova do Tribunal de Justiça feita no domingo, às nove da manhã essa prova já estava circulando. O pessoal saiu do local de prova, muitos iam ao banheiro com celular, houve uma série de irregularidades lá, então eu publiquei antes de sair na imprensa. E as redações de jornais e televisão também estão ligados nas redes sociais, acompanhando o blog, o twitter. Geralmente eu pauto muito quem trabalha na imprensa.

A.F.: Um dos casos mais polêmicos que você divulgou em primeira mão foi do estupro envolvendo um menor da família Sirotsky. Como o caso que você mesmo intitulou “estuprotsky” veio à tona?
M.: Uma fonte de dentro da RBS que não trabalha mais lá, ex-repórter, tava com a informação na mão e perguntou se eu tinha interesse em divulgar porque tinha provas que realmente teria sido um crime e me conseguiu documentos. E também através de um email, recebi cópia da data que a polícia estava marcando uma audiência com um dos rapazes, comprovando que havia tido um crime. Teve um terceiro garoto, que até hoje não foi divulgado o nome do rapaz.

A.F.: E como comprovou que o Formspring do adolescente envolvido era dele mesmo?
M.: É óbvio, aquilo foi comprovado. A repercussão, tanto é que foi anexado no processo. Eu consegui salvar no meu computador e logo depois aquilo sumiu do site. Por isso tudo que eu vejo na internet, antes de ler, eu já faço um printscreen pra garantir que aquilo não vai desaparecer. Tanto é que era verdade que desapareceu.

A.F.: Há um exemplo de quando o senhor chamou de “cara de pau” o promotor que cuida do caso do estupro. Qual justificativa para o uso dessa linguagem fora do padrão jornalístico em seu blog?
M.: O atrativo do meu blog é um pouco do que eu escuto na rua ou na mesa de bar, que é o pensamento da população. Então quando eu uso uma linguagem um pouco mais agressiva, as vezes mais forte, mais contundente, é para me aproximar um pouco do que eu vejo na rua, esse é o sentimento. Quando a população vê que um crime desse está impune, é que o promotor sentou a “bunda” no processo, que é um “cara de pau” mesmo. Cem mil pessoas xingaram o José Sarney no Rock in Rio. É um sentimento de indignação com a política, com os corruptos. Uns acham que o meu linguajar é chulo, outros acham que é popularesco. Eu expresso muito o que sinto na hora que estou escrevendo. Procuro cada vez mais, até por orientação dos meus advogados, não falar muito palavrão, ser mais comedido. Mas às vezes eu fico muito indignado.

A.F.: É verdade que o senhor recebe ameaças?
M.: Sim, eu recebo muitas ameaças de morte, já tive uma agressão na Assembleia, um cara me seguindo, outro dizendo que vai me matar, matar minha família. Tem um perfil no twitter que me persegue 24 horas. Tudo que eu escrevo o cara vai e escreve atrás me difamando, ameaçando, invadindo as timelines de servidores dizendo que eu sou bandido, que sou ligado ao Esperidião Amim. São profissionais pagos para ficar me atazanando. Eu tenho tanta importância que chegam a contratar alguém para ficar 24 horas cuidando do meu twitter.

A.F.: E como lida com isso?
M.: É dificil né, mas eu bloqueio, faço as denúncias, vou na polícia, denuncio no twitter. Mas acho que é um preço que estou pagando porque eu mexo com muitos interesses. Claro que esse Altamir Paes que vai sair do cargo, é claro que ele vai tentar me prejudicar porque foi uma representação minha. Tem gente que me ameaça, mas eu estou tranquilo quanto a isso, não tenho segurança especial. Tenho meus cuidados normais como cidadão, mas não vivo em função disso. Não vivo porque é um tipo de coisa que ou você faz ou não faz, sem outra alternativa. É um risco inerente da atividade.

A.F.: Para finalizar, uma pergunta maic complexa: Qual sua opinião sobre a ética jornalística?
M.: Eu uso muito a frase de um professor do departamento de jornalismo, o Hélio Schuch: “quando alguém vem falar de ética comigo eu coloco a mão no bolso, pra segurar minha carteira. Quando vem falar de ética duas vezes eu coloco as duas mãos na carteira”. Então, o que é ética do jornalista? O jornalista tem ética na produção do seu material, mas qual é a ética que tem a sua emissora na reprodução do material? Eu acho que a ética é muito relativo. Geralmente é usada para prejudicar a informação. Você tem que ser ético na divulgação das informações, mas isso está sempre à serviço de algum público com interesse. Se houvesse ética mesmo, nós teríamos uma informação mais imparcial, uma maior liberdade de expressão.E não é só em relação à Florianópolis, e sim no Brasil inteiro há um monopólio da informação. A liberdade de expressão a gente até conquista, mas e a liberdade de isso ir para a população? Hoje está nas mãos de grupos de interesse. Eu não ando muito preocupado com essa questão da ética, mas eu acho que tem que ter responsabilidade com a informação que passa.

Nota da repórter: Ao agradecer pelo twitter a entrevista no dia seguinte, tive a comprovação que há realmente alguém de olho no Mosquito 24 horas por dia. São dois perfis do twitter (@pau_no_mosquito e @UrnaLimpa) que deixaram o mesmo recado no meu perfil denegrindo a imagem do blogueiro. Apelaram pra tudo, dá uma olhada na mensagem: @tijoladas @aariannaf cuidado que o tijolada$ costuma agredir mulher, é covarde, bandido, condenado. ficha suja, mandrião n trabalha”

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