9 de dez de 2011

Dona Cícera no ar:

(publicado no Jornal Cidadela em 09.11.11)

Nesta quarta-feira vim para Brasília num vôo “pinga-pinga” que me fez três experiências diferentes: de Chapecó para Florianópolis sentou-se ao meu lado um vereador daquela cidade, uma que outra conversa amena e logo ficou claro que pra ser vereador não basta muito, para alguns basta somente um discurso populista e com a profundidade de uma poça d’água. O segundo entre a nossa capital e São Paulo entrou mudo e saiu calado, roupas e óculos de grife denotavam que não estava disposto a se misturar com este povo que havia invadido seu “espaço aéreo”. Mas a terceira foi “A Lição”!

Uma senhorinha é conduzida pela funcionária da companhia aérea e é orientada a “apertar este botão caso precise de algo”. Por conta do sorriso logo me prontifiquei a ajudar no que fosse necessário. Estava aberta a porta para uma experiência que nunca imaginei que um dia teria. Por algumas vezes me peguei segurando o choro. De imediato aquela figura miúda entabulou entusiasmada conversa onde pude conhecer não ela, mas como toda a sua família e história.

Nunca  havia viajado de avião, só na vinda para São Paulo onde veio visitar os filhos e netos. De nome Cícera (por certo homenagem ao padre tão adorado), saiu de Cacerengue, interior do estado da Paraíba. Mãe de dez, avó de cinco e bisavó de um. Agricultura toda feliz por saber que o dia da sua aposentadoria está por perto. “Agricultor pode se aposentar, sabia? Hoje eu vivo com o que planto e com o Bolsa Família. Quando chegar a minha aposentadoria vou comprar um ‘computadô’ pra minha filha de 16 anos que quer estudar pra ser Advogada”.

Daí ela conta que está muito feliz em ver que a caçula vai lhe dar o orgulho de ter um filho formado. Logo ela analfabeta ao ponto de não diferenciar um número de uma letra. Desde pequena foi levada para trabalhar “na roça”, “não tive tempo pra isso não”. A ideia de voltar a estudar nem que fosse para poder ler a Bíblia lhe pareceu atraente, a hipótese de sentar-se num banco escolar lhe pareceu até divertida  Assim que chegasse a tão esperada aposentadoria ia poder largar a lavoura, quem sabe aprender a ler o que a filha “doutora” escreve?

Falamos de muitas outras coisas, de como ela se sente amparada com um tal Seguro Safra que agora nem o sol e nem a chuva podem ser os culpados pela fome. Do médico que atende no postinho, da enfermeira que vai na “casa da gente” medir pressão e ensinar a tomar os remédios. Dos R$ 102,00 reais que recebe do Bolsa Família e que agora ajuda a comer algo mais do que o feijão de corda, o milho e a pouca verdura que a terra lhe dá. Falou sem saudades de um tempo em que o homem do sertão sabia que entrava o ano, mas não tinha garantia que o veria encerrar. Tempos de fome “da moléstia”.

Daí ela viu num jornal que estava na minha mão a foto do ex-presidente Lula e logo saltou com uma exclamação: “Tadinho! Nosso Senhor Jesus Cristo está olhando por ele, eu rezo muito pra ele se curar. Ele fez tanto bem pro povo que sofria...” Emendei que votei na Dilma justamente pelo fato de saber que ela ia continuar a fazer com que muitas outras pessoas deixassem de sofrer tanto. Não foi um voto por mim, foi por quem a fome é muito mais do que um atraso na hora da refeição. Ela sorriu e minha garganta sentiu o nó.

Tudo bem... Até agora estamos no âmbito da Democracia Econômica, aquela que dá a todos o poder de compra. Falta um eito para a efetivação da Democracia Social, mas para isto é que existem eventos como o que me fez me abalar até a capital nacional, onde estamos discutindo o Sistema Único de Assistência Social. Há também o trabalho de gente que faz entidades como a Creche Irmã Sheila existir. A Dona Cícera estava toda feliz no céu, entretanto na segunda-feira eu também vi muita gente deslumbrada por ter a oportunidade de não só conhecer o Teatro Alfredo Sgwaldt como também ter visto seus filhos no palco...

Mas isto é assunto para a semana que vem, pois todos os personagens desta história aí merecem um capítulo à parte afinal os trabalhos destas pessoas aqui da nossa terra de uma forma ou de outra nos mostra que realmente um país rico é um país sem miséria (mas também com inclusão ampla, geral e irrestrita!).


PS - tanto a foto quanto o escrito foram autorizados pela dona Cícera.

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