29 de fev de 2012

Arlequins, Colombinas e Palhaços Reflexões sobre agremiação, blocos, carnaval de rua, cultura popular e espaço urbano.

 Por Rodrigo Bernardi [1]

Como não tenho tempo hábil para analisar o carnaval de Joaçaba sob a ótica e critérios de uma pesquisa científica, abordarei a temática por meio de percepções pessoais tomando como ponto de partida o conceito de carnaval que o coloca notadamente como uma festa democrática. Confrontarei o modelo de infraestrutura e o sistema não-democrático (excludente) quanto a ocupação dos espaços urbanos. O texto propõe a noção de agremiação como polo de cultura e motor social, revelando novos protagonistas do samba a partir da comunidade local.

Em Joaçaba, a concentração de foliões ocorre tradicionalmente no centro da cidade por conta dos desfiles das escolas de samba. Já na parte alta, próximo ao complexo universitário, fora realizado o carnaval de blocos que, por uma decisão da promotoria pública, não pôde ser realizado no centro, como era de costume. Para alguns, essa mudança soa como a perda da aura do carnaval de rua. Para os organizadores, representa o crescimento econômico, atraindo mais turistas para a festa. Fora do eixo desfile-blocos o carnaval é “invisível”, pois beneficia apenas as pessoas que pagam para sentar nas arquibancadas, nos camarotes e nos blocos. O espaço urbano, especificamente as ruas e os acessos ao centro são redesenhadas de acordo com a logística desenvolvida pela gerência de Trânsito, Transporte e Mobilidade Urbana. No entanto, o que seria o palco para uma grande festa popular, nada mais é do que o backstage para atender às necessidades dos desfiles. De um lado, todo o empenho para garantir um grande espetáculo, de outro, arlequins, colombinas e palhaços, órfãos do legítimo carnaval de rua.

Em linhas gerais, o joaçabense celebra a festa da carne e dos excessos da seguinte maneira: na Avenida XV de Novembro acontece o tradicional desfile das escolas de samba do município de Joaçaba e Herval d’ Oeste. Nas agremiações, é possível identificar uma ala progressista que, via redes sociais, manifestam-se frente às necessidades de um sambódromo, que, forçosamente, redimensiona o conceito de agremiação e, sobretudo, no aperfeiçoamento do universo criativo do carnaval, seja por intermédio de atividades culturais e na instalação de projetos sociais. Além de beneficiar diretamente as escolas, os projetos contemplariam toda a região. Portanto, isto quer dizer que o espetáculo popular não começa no barracão e termina na avenida, pois o carnaval é a extensão de um projeto que vislumbra um resgate cultural por meio de atividades multidisciplinares, capacitação técnica e artística. Desse modo, diretoria e comissão carnavalesca, dialogicamente, produziriam durante o ano, meios de qualificar músicos, aderecistas, bailarinos, bem como promover oficinas de pintura, escultura e modelagem para fantasias. Assim, em vez de insistir na importação de profissionais do Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba – agindo na redução de gastos – este empreendimento favoreceria a comunidade, proporcionando o desenvolvimento de novas gerações de artistas do carnaval e admiradores do samba.

Outra maneira de participar da festa é através do carnaval de blocos, organizado por um grupo de investidores-associados conhecido como Carnafolia. Neste, o folião financia um tipo de passaporte que lhe garante o acesso às noites de festejo. O local destinado esse ano contou com uma praça de alimentação, UTI móvel, segurança privada e amplo espaço ao ar livre. O que em outros carnavais simbolizava, sobretudo, a criatividade das fantasias – em meio a confetes e serpentinas –, nos dias de hoje, a ideia de ocupação do espaço urbano fora substituído por um complexo de lazer, com área vip e até um lounge para o descanso. Há quem discorde, mas o carnaval de blocos de Joaçaba é como se fosse uma “balada fora de época”, como a micareta, que acontece independente do carnaval. A semelhança se dá pela capacidade do evento sintetizar o que acontece nos métiers do entretenimento noturno, para assim, justificar a grandeza do investimento, que, dentre tantos, consta a estrutura, o atendimento "diferenciado" e contratação de bandas. Esta é uma modalidade contemporânea de carnaval que deu certo por vincular a noção de bloco (que não anda!) num ambiente elitizado e direcionado pelo serviço open bar, ou seja, “beba até morrer!”.

Além do mais, se não fosse o Carnafolia, o que seria dos desfiles no centro da cidade? E se não houvesse desfile, o que seria do Carnafolia? Sem um ou outro (o que é impossível pois ambos são orquestrados com recursos distintos) o que proporia a Prefeitura Municipal de Joaçaba para saciar turistas sedentos por festas? Diante destas questões é pertinente fomentar a ideia de carnaval como uma manifestação espontânea popular, multicultural, sem distinção social, viável, bom para o bolso do assalariado. Ainda assim é necessário rever a logística do espaço urbano como zona de potência tanto econômico, quanto para aqueles que optam pelo divertimento urbano. O mesmo se dá para os bairros fora do centro, onde se quer é possível ouvir o grito de carnaval.  E por fim, com o espaço urbano ocioso, a festa em si se reduz à homogeneidade, ou melhor, revela-se privada e ao gosto comum revestido por abadás, contrastando socialmente com a ocupação de populares abaixo das arquibancadas, disputando lugar com propagandas e um lugar apertado e desconfortável. O carnaval tem se adequado em cidades como o Rio de Janeiro, pois a festa em si permite reinventar-se uma vez que a sociedade e a cultura também se reinventam.

[1] Rodrigo Bernardi é artista e pesquisador independente. Apresentou espetáculos de dança na Itália, França e Portugal. No cinema, fez a preparação corporal da atriz Débora Falabella no filme Dois perdidos numa noite suja. Participou de programas subvencionados pela Secretaria de Educação de Niterói e Governo do Estado do Rio de Janeiro.

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