6 de fev de 2012

Por fora bela viola...

(publicado no Jornal Cidadela em 03.03.2012)

Umas das coisas que usava como argumento para explicar a minha opção por ter vindo morar no interior foi o fato das coisas funcionarem melhor. Pouca gente, maior facilidade para administrar os serviços. Somando-se a isso o fato a cidade escolhida ser uma campeã de arrecadação. Por certo eu havia escolhido bem ao decidir fincar raízes em Joaçaba.

Há seis anos aqui ainda mantinha este discurso firme, mesmo ouvindo um que outra voz tentando me convencer que “nem tudo são flores” apresar de ter cor de flor. Vez por outra vejo problema de falta de vagas em creches ou que falta médico desta ou daquela especialidade para atender no âmbito da Saúde Pública.

Até hoje estes fatos passavam meio que ao largo da minha confortável vida nesta cidade, não tenho mais filhos em idade escolar (ensino básico), sou relativamente saudável. Com minha asma controlada há anos, no máximo uma crise aguda uma vez a cada morte de Papa. Meu marido foi convidado para participar do acompanhamento da Diabetes e Hipertensão pela agente de saúde, o que chama de HiperDia.

A partir daí  começamos a perceber que uma coisa é o que dizem existir em Joaçaba e outra é a realidade. O médico manda fazer exame que não existem médicos para fazê-lo. Era uma avaliação oftalmológica, tudo bem, como ele sempre vai ao médico trocar o grau dos óculos, tem sua visão controlada. Voltou para o retorno e disse que não pode fazer a dita avaliação por falta de médico. Ele é saudável, está no programa porque é uma coisa que se tem notícia que funciona bem.

Nas duas ou três vezes que eu usei os serviços do HUST a única coisa que me impressionou foi a conversa em grupo dos jovens que ali se encontravam para prestar atendimento. Lembro que em uma destas vezes tive que intervir para ajudar uma senhora que estava caindo da sua cama (eu estava recebendo oxigênio) e não fora percebida pelo tão animado grupo que mais parecia estar no intervalo entre as aulas.

Ano passado lembro que foi cantado em prosa e verso o convênio feito com o HUST que o transformava em Pronto Atendimento 24hs para os moradores de Joaçaba, para atender no contra turno dos ESFs. Não vi com bons olhos, pra mim hospital é hospital, posto de saúde é posto de saúde. Estruturas diferentes, sistemas de trabalho diferentes. Lembro de ter pensado que um ESF mais central bem que poderia atender a população, pelo menos até às 22:00hs, quando o pai ou mãe saem do trabalho e podem ir ao médico ou levar seu filho que foi encontrado febril em casa.

Este final de semana tive a oportunidade de conhecer o dito PA 24hs / HUST. Sexta-feira estava com uma dorzinha de garganta, passei às 17:00hs no ESF Central (que me atende), fechado. Tudo bem, como não possuo amígdalas, não haveria de ser nada. Durante a noite entendi que laringite dói e muito. Pela manhã procurei atendimento. Saí de lá com uma receita de um comprimido anestésico e com a orientação de que o problema iria progredir e que eu deveria procurar o “postinho” na segunda-feira para pegar uma receita de antibiótico.

Não preciso nem dizer que o dito remédio só serviu enquanto o anestésico fazia efeito, a madrugada foi insone, a bolsa de água quente e a Dipirona foram minhas companhias. Na verdade foi aí que “me caiu a ficha” e eu me lembrei do citado convênio. Fui novamente ao HUST e questionei a existência ou não deste serviço de PA 24hs como noticiado. Se existia porque eu teria que agüentar a dor até na segunda-feira para ir ao “postinho”? Fui encaminhada para outra consulta onde fui consultada de verdade e saí de lá com a receita em mãos: antibiótico e corticóide. Na quarta-feira a garganta ainda dói um pouco, mas os remédios receitados ainda estão sendo tomados conforme a prescrição.

Mas dizem que urubu não vem sozinho... Terça feira no final da tarde foi meu marido que precisou de um atendimento numa emergência oftalmológica: um caminhão lançou algo em seu olho. Cerca de 17:00hs foi atendido e um jovem retirou um corpo estranho do seu olho, fez curativo e mandou para casa. Novamente tivemos uma noite de cão. Quatro horas da manhã lá estávamos nós no HUST (PA 24hs), nem tudo havia sido tirado, não era possível, a dor era insuportável.

Como ele foi orientado a procurar um Médico Oftalmologista caso a dor persistisse, às  8:30hs fomos no ESF Central para saber quem prestava este tipo de serviço. Ninguém. Joaçaba não possui serviço de oftalmologia pública, nem de emergência. Se quisesse tinha que esperar o dia em que a Assistente Social estaria na Secretaria de Saúde para fazer uma entrevista para ver se era possível conseguir uma consulta com preço social (se é que R$ 100,00 possa ser chamado de “social”).

Fiquei indignada, nem por mim, eu só precisava do nome de algum médico para levar meu marido. Enlouqueci porque sabia o quanto custa uma consulta particular e sei que a maioria das pessoas que usa a SUS não tem a menor condição de desembolsar R$ 250,00 ou R$ 300,00 assim numa situação não planejada. O que acontece com um pobre que tem o olho ferido? Deixa vazar e coloca um de vidro, vira pirata? Absurdo! Saí soltando fogo pelas ventas. Pobre povo...

No consultório descobrimos que houve o ferimento da córnea por fricção, uma úlcera. Meu marido relata que os dois atendimentos feitos no HUST foram “a olho nu”, na base da “cata” aos “objetos”, nem uma lupa daquelas das lojas de R$ 1,99 havia para facilitar a retirada dos corpos estranhos encontrados nos dois atendimentos. Resultado: dores insuportáveis e uma receita com colírio e pomada para tratar o que (provavelmente) um cotonete conseguir fazer...

A partir de agora começo a relembrar dos relatos de pessoas que se socorrem nas cidades vizinhas para serem atendidas, ou que esperam há mais de ano por uma simples consulta...

...por dentro, pão bolorento!

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