4 de mar de 2012

CARTA AO CANDIDATO

(publicado no Jornal Cidadela em 24.02.2012)


Ganhei por herança um Blog, coisa pouca, só a conta do fígado tomado emprestado dar tempo ao autor escrever uma coisa aqui outra acolá....
Por vezes me darei ao direito de trazer algo para este meu cantinho...
Uma homenagem a quem já se foi, uma homenagem a que se doa e dá um tantinho assim de vida a alguém irmão...

Por Norberto V. S. Hoff
Publicado no Jornal A Notícia 30.08.10


CARO CANDIDATO


Hoje este operário, socialmente invisível, se reconheceu um cidadão, afinal encontrou em sua caixa de correspondência um recado de Vossa Excelência, e pasmei, pois era, de fato, para mim. Acostumado a ser lembrado somente pelas cartas de cobranças, reli várias vezes para me certificar de que o endereço e nome estavam corretos.
Em sua mensagem, o senhor garante que lutará pela educação, saúde e segurança. Não sei aonde eu já ouvi sobre isso, mas sabe como é, faço parte deste povo que usufrui do esforço desesperado dos políticos. E ainda reclama só porque os senhores aprovam reajustes em seus próprios salários quando se lhes dão na telha e algumas mordomias como auxílio-moradia, auxílio-empregada, auxílio-fralda; ou não? Bem, me desculpe o auxílio fralda, eu sou meio “Zé Povinho”, mesmo. E também porque o eleitor ingrato repete a frase de Eça de Queirós: “As fraldas, assim como os políticos, devem ser trocados de tempos em tempos, pelos mesmos motivos”. Que maldade, o senhor não acha?
Mas escrevo para lhe agradecer a lembrança. Agora que estarei seguro, com direito a saúde e que meus descendentes estudarão em colégios bons, embora públicos, afinal, da forma como o senhor afiançou que vai melhorar o ensino, tenho certeza que seu filho será matriculado, também, em uma escola do município ou do Estado. Então eu e meus colegas, do chão da fábrica, conversaremos – desculpe o orgulho –, sobre nossos herdeiros estudarem na mesma sala que seus filhos. Parece que estou vendo professoras felizes com salários elevados e com bons equipamentos para ensinar rebento de trabalhador.
O senhor promete também enxugar, isso é, vender a Companhia de Luz e de Águas. Por favor, absolva-me pela ignorância, mas essa eu não entendi. O meu vizinho falou que os estrangeiros estão sem água e com muita sede de engolir a nossa. Depois, como donos poderão cobrar o que quiser de nós mesmos.
Primeiro fiquei meio desconfiado. Afinal, vender nossa água e nossa energia elétrica não parece coisa boa para o futuro. Deve ser essa minha falta de conhecimento, uma vez que o senhor parece bem intencionado. Enfim, quem paga essas propagandas a todo instante, na mídia, para sua campanha deve ter direito a explorar para lucro próprio a nossa água e luz, caso o senhor venha a se eleger.
O senhor acha que quem lhe doou dinheiro tem direito de receber do povo. Inclusive levar nossa água embora, em grandes navios, porquanto ela valerá mais que petróleo. Depois, morrer de sede não será novidade para uma nação acostumada a morrer de fome. O senhor, pela gratidão, é um verdadeiro humanista.
Eu gostei também da promessa de que todas as rodovias serão duplicadas. Mas gostei mais do senhor garantir que vai acabar com as enchentes em nosso Estado. Eu sou, mesmo, um eleitor de sorte, visto como fui lembrado por um homem que tem o telefone de São Pedro. Na verdade eu só não votarei no senhor porque tem um candidato no meu bairro e pretendo fiscalizar seu trabalho. Mas para o senhor, com tantas propostas, não há de faltar votos. E se não cumprir as promessas, Vossa Excelência ainda poderá culpar o eleitor. Afinal, o senhor sabe que errar é humano, mas culpar outra pessoa é política.
Certo de que meu mísero voto não interferirá nessa amizade que hoje nasce; e de que meu nome não voltará à invisibilidade social após as eleições, agora que somos amigos, abraços.


Um brasileiro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário