3 de mar de 2012

Ou a carroça ou o furto:

(publicado no Jornal Cidadela em 02/03/2012)

Ultimamente minha cabeça andava exigindo uma folga, começou a se comportar como operário descontente, ora me sabotava, ora falhava de forma involuntária. Isso quando não resolvia “se ausentar’ como fez no Carnaval que me pôs num sono que me deixou alheia a tudo o que se passou durante os festejos de Momo (aqui eu não sei se devo lamentar ou agradecê-la, só sei que muito serviço que havia programado para aquele feriado ainda está lá...)

Esta semana seria repleta de datas festivas, a melhor “desculpa” para uma viagem de, pelos menos, cinco dias sem que com ela viesse algum compromisso de ordem profissional ou das minhas outras lutas. Outras minhas saídas são tão rápidas porque todos os meus companheiros não-humanos não podem ficar sem atendimento (48 horas é o máximo que permitem ao casal se ausentar). Lá se vão seis anos que não me dou a este luxo, até os Natais sempre têm vindo com o “pacote” visita de última hora a algum cliente/fornecedor.

Domingo (26) haveria almoço de comemoração de dez anos da minha formatura em Direito, segunda-feira aniversário do irmão mais velho, terça-feira seria minha vez (a entrada nos “enta” é algo especial), dia 29 mais um dos raros aniversários da minha mãe. Joinville é o destino! Nada de carro, fiquei mal acostumada com as atenções do marido e perdi a prática na estrada, ainda mais sozinha. De ônibus. Menos de “Reunidas” porque eu não quero andar nos “pau-de-arara” que eles disponibilizam para as vítimas que não tem outra escolha. Pra Joinville existe a alternativa da Auto Viação Catarinense, e esta foi a escolha.

Nessa onda de assalto a ônibus a precavida aqui resolve fazer um esquema de “dividir um possível prejuízo”, ainda mais que em semana tão festiva muita coisa teria que ser levada. Decidi não levar o Cartão de Crédito que tem o limite alto, este fica; nem documentos do carro e da moto. Na bagagem de mão foram a carteira com o outro Cartão de limite baixíssimo, documentos pessoais e mais uns R$ 160,00 (o que a gente que está acostumada com cidade grande diz ser “do ladrão”). Também ficaram Notebook, máquina fotográfica e meu celular que me mantém conectada e serve de substituto ao livro, sempre fiel companheiro nestas horas.

Mala! Mala de mulher é dose pra leão! Uma roupa para cada situação e todos os acessórios para cada vestido ou oportunidade. Viagem terrestre, sem as neuroses dos aeroportos. Tranquilidade no que seria levado no bagageiro debaixo: vestidos, óculos de sol, jóias, roupas de praia, toda a parafernália que mulher levar (um toalete inteiro). R$ 500,00 enfiei no forro do estojo de roupas íntimas (uns dias estavam reservados para a Praia do Ervino, onde o mar ainda é o maior protagonista e coisas como caixas eletrônicos ainda inexistem). Para mais valores haveria quem me socorresse.

Sábado 22:20h embarco de Joaçaba pra Joinville. Um passageiro acostumado a usar aquela linha me avisa da “conexão” em Blumenau. Brinco dizendo que então, mesmo sendo míseros 400 quilômetros por terra ainda temos o mesmo risco dos aeroportos. Risco e incômodo de mudar de veículo, a tal baldeação (pensava eu isso ter ficado lá pelos meados do século passado). Viajo atenta com a bagagem de mão no colo. Nem durmo por conta do ronco de um companheiro de viagem. Ainda bem que o livro escolhido era fantástico.

Chegando à  Blumenau fomos avisados que os passageiros que iam para Joinville (e as outras cidades do entorno) deveriam mudar de carro e que levassem consigo sua bagagem de mão. Tinham me avisado que a troca seria para pior, mas não, até o cheiro do novo veículo era melhor (porque o outro tinha um misto de produto de limpeza com o desconforto estomacal de algum passageiro anterior). Entra um homem jovem e simpático e pergunta se os cinco passageiros que eles têm programado para estarem naquele carro estão ali e que alguém desembarcaria em Massaranduba. Ninguém. Para relaxar solta a brincadeira “quero avisar que encontramos um bolo de R$ 500,00 e estamos devolvendo a borracinha”. Todo mundo riu, inclusive eu que tinha exatamente isto (e numa borrachinha) muito bem guardado na mala e estava tranquila que de dali não se perderia.

5:00hs da manhã em Joinville. Beleza! O irmão mora ao lado da rodoviária; daria para dormir um bom sono antes do almoço comemorativo. Mas eu cheguei em Joinville, minha mala, não. Começou o calvário entre o péssimo atendimento dos funcionários da Catarinense e a preocupação com os pertences e o compromisso das 11:00hs. Depois de uns 25min esperando sentada sem que ninguém viesse me dar uma explicação resolvo exigir meus direitos de passageira e recebo como resposta do atendente “que ele não tem nada a ver com isso”, lembrei-lhe do uniforme que usava e que tratasse de ver onde foi parar minha bagagem.

Adentrei a sala VIP que a dita empresa alega disponibilizar aos clientes. Os bancos da área comum alguns estavam sendo usados de cama e eu já estava temendo pelo o que me restou como bagagem de mão. Fui exortada por uma funcionária muito grosseira que deveria sair dali. Poucos minutos antes uma mãe com duas crianças (sendo um bebê de colo) teve o acesso negado, mesmo eu já estando lá dentro. Tive pena, mas estava tão exausta que desta vez não fiz o que sempre faço (como uma chata que sou) que é interpelar e pedir bom senso, dada as circunstâncias da mãe e das crianças. Minha consciência imediatamente me condenou.

Nem toda a grosseria da funcionária conseguiu me intimidar. Avisei que era cliente daquela maldita empresa e que estava desde às 5:00hs da manhã ali só por conta da falta de competência em levar uma mala num trajeto de 400 quilômetros. O mínimo que me deveriam disponibilizar era um local, água e acesso à internet para me dar certo de conforto enquanto se viravam para localizar a bagagem. Ela se quisesse que chamasse a Polícia para me retirar e isto já seria um favor afinal eu tinha uma ocorrência de furto para registrar. Já eram 7:30hs, o sono e o estômago também já não eram os melhores aliados.

Logo veio ao meu encontro um jovem de nome Anderson, muito educado e solícito, para informar que minha mala havia ficado no ônibus que fora para Florianópolis e que seria embarcada às 8:30hs, chegando em Joinville às 10:55hs. Lembrei que eu tinha um compromisso social às 11:00hs e que nem escova de dentes tinha em mãos. Não quis que levassem a bagagem onde eu estaria, faria questão de ver seu desembarque e que ela seria aberta dentro do escritório da Catarinense, pois já não confiava mais na idoneidade da empresa.

Às 11:00hs abro a mala e me deparo com o absurdo: tudo revirado, de nécessaire a calcinhas! De imediato dou por falta do dinheiro, pois as calcinhas e o rasgo no forro do estojo onde elas estavam guardadas foram a primeira imagem quem se apresentou. Depois dei falta do vestido que usaria no almoço. O saquinho de tafetá preto que levava as jóias e demais penduricalhos femininos, nem sinal. O estojo de maquiagem estava aberto e ela toda espalhada entre as roupas, dei falta de um batom caro. Só à noite fui perceber a ausência dos óculos de sol, este item não fora relacionado, mas estava dentro da bolsa dos biquínis que também fora devassada. Chamo meu irmão (na hora mesmo a gente sendo Advogada dá um branco, eu esta me sentindo muito vulnerável). Em cinco minutos está lá para me auxiliar com as questões legais e aciona a Polícia Militar. Bato várias fotos da mala no chão, dos Policiais e dos funcionários, do circo todo.

Pela cena que encontraram os PMs conversaram com os dois funcionários da Catarinense e disseram que era evidente que aquilo ali se tratava de algo que deveria ser visto pela empresa, pois ninguém se expõe daquele jeito para “tirar vantagem”. Lógico que todo mundo percebeu que parece ser praxe da empresa alegar que os passageiros tentam obter alguma vantagem em situações como esta. Talvez já prevendo isso eles nos orientaram a registrar um Boletim de Ocorrência na Delegacia de plantão e entrar com a Ação de Indenização. Depois de preenchido um formulário onde uma cláusula absurda foi riscada e anulada. E pelo fato de ter falado do meu já perdido almoço, descobrimos que os simpáticos Policiais são formandos de Direito.

Lá pelas 14:30hs consigo chegar no almoço (sem banho, sem escovar os dentes, com a roupa da viagem) para abraçar os amigos que ainda estavam em torno da piscina terminando as últimas bebidas e se despedindo. Uns nem cheguei a ver. Uma foto foi batida, depois de toda a “desgraceira” só nos resta rir da situação. Já havia chorado o suficiente. Havia amigos que desde o baile de Formatura não havia mais visto... Foram dois meses de trabalho para mobilizar todo o 5º. Ano A da Faculdade de Direito de Joinville, turma 1997/2001. Esta frustração eu vou carregar comigo...

Na terça-feira, dia do meu aniversário, o maridão liga contando que o ocorrido já  repercutiu em Joaçaba e que a Catarinense está responsabilizando o senhor que cuida do guichê em Joaçaba. Alegam que na foto postada no meu Facebook há uma etiqueta, eu explico que a etiqueta que está ali é a que foi feita pelo funcionário de Florianópolis com um recado de que chegasse às mãos do gentil Anderson. Engraçado que a empresa sabe de tudo isso, mas sequer responde meus chamados via Twitter... E se ela está acessando meu Facebook já deve ter visto outros relatos parecidos. Algo de muito errado vem ocorrendo, só que desta vez parece que aconteceu com a pessoa “errada”.

Em Joaçaba o marido fica incumbido de providenciar minha passagem de volta. Pela Reunidas. “Pela Reunidas?” Sim, prefiro voltar numa carroça que corre o risco de dobrar o tempo de viagem, mas chegar com minhas coisas intactas. Só roupa suja basicamente, mas minha! Fazer o quê se a cidade que tanto se orgulha do seu IDH oferece este tipo de serviço aos moradores, estudantes e turistas? Nenhuma pressão para a melhoria nos serviços. Falam de Turismo e são de um amadorismo sem tamanho quando esquecem que a logística é algo essencial na escolha do destino de viagem. Falta muito pra aprender...

Quanto às duas empresas, ambas já provaram que parecem ter esquecido que Concessão pública é o contrato entre a Administração Pública e uma empresa particular, pelo qual o governo transfere ao segundo a execução de um serviço público, para que este o exerça em seu próprio nome e por sua conta e risco, mediante tarifa paga pelo usuário, em regime de monopólio ou não.” Mas esqueceram também quem existem as Agências Reguladoras, no caso, a ANTT (Agência Nacional de Transporte Terrestre) a qual, ou não está atuando a contento, ou tem sido condescendente com empresas que de alguma forma possuem relações com pessoas que de uma forma ou de outra exercem algum tipo de poder (político ou econômico).

A nós  usuários cabe fiscalizar e exigir que a prestação de serviços ocorram na forma dos contratos quando do tempo das licitações. Aquela velha máxima dos nossos bisavós: “Quem não tem competência não se estabelece!” nunca foi tão verdadeira. Nós pagamos (e muito caro – herança maldita da era da “Privataria Tucana”), temos o direito de sermos bem atendidos e, no mínimo, não ter nossas bagagens devassadas... Enquanto isso eu vou esperar mais alguns poucos dias para que a Auto Viação Catarinense crie vergonha na cara e me procure para conversar, depois só em juízo.


Leia também: Em 2010, de pau-de-arara! (que fala da Empresa Reunidas)

Um comentário:

  1. Se eu nunca andava de Catarinense [sim, ainda prefiro a Reunidas], agora é que nunca vou andar mesmo de Catarinense. Parabéns para a Catarinense, que com esse exemplar tratamento dado à Bete, conseguiu bastante propaganda negativa, e farei questão de dizer a todos os meus conhecidos: "Não confiem na Catarinense".

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