27 de mar de 2012

Para aprender com eles...

(Publicado no Jornal Cidadela em 23/03/2012)

Estava disposta a escrever sobre a polêmica ocorrida nas redes sociais sobre a falta de espaços públicos para nossos jovens se divertirem com seus skates, mas parece que depois de todo este barulho a Administração acordou e anunciou a construção de uma pista de skate. Tanto melhor. Espero que não seja mais uma promessa vazia. Os jovens gostam e os “não tão jovens”, que ainda têm preconceitos contra o esporte, agradecem.


Na quarta de manhã abro meu Facebook e vejo uma linda imagem que me lembra que hoje – 21 de março – é o Dia Internacional da Síndrome de Down. “Maria Manteiga” que sou já fui logo chorando de saudade de dois grandes “amiguinhos” meus: Ana Karina e Estanislau. Pessoas especiais que Deus colocou na minha vida. Foram meus amigos de infância, são meus amigos de coração até hoje.


Ana Karina e Estanislau sempre estiveram presentes nas nossas brincadeiras de criança. Lógico que tratávamos como “café com leite” (expressão usada pra dizer que eles não seriam punidos por erros). Lógico que nem todos gostavam da companhia deles afinal não acompanhavam o ritmo frenético das crianças “normais”. Era um exercício de paciência e amor. Eles eram só amor e vontade de participar.


Em todas as festas de aniversário lá estavam os dois fazendo questão de contar para todos os convidados que eram meus amigos. Puxando-me pela mão (Como são fortes! Nem tentava me desvencilhar!) iam se apresentando e dizendo que estavam ali para “cantar parabéns para amiga Bete” e perguntavam se o convidado também cantaria “parabéns”... Já eram figurinhas conhecidas, todos respeitavam e as crianças que ainda não estavam acostumadas com eles logo eram esclarecidas e entravam nas brincadeiras.


Os anos passaram, mudei de cidade, casei, tive filhas, descasei, voltei muitas vezes para a casa da mãe, principalmente para fazer as festas de aniversários das filhas. Casa espaçosa, rua particular, vovó prendada na arte de organizar tudo. Outra geração enchia a casa de alegria, novos risos, novos choros. E lá estavam meus amados amigos “cantando parabéns” para suas novas amiguinhas!


Lembro que numa destas festas, eu já na categoria de adulta, estava sentada ao lado da mãe das “crianças” olhando como se divertiam, independentemente do tamanho destoar em muito do resto do grupo. Começamos a lembrar das peripécias de infância quando os dos fugiam para a minha casa e a mãe vinha logo atrás, constrangida, perguntando se eles não estavam incomodando. Eles se sentiam em casa, e era assim que sempre foram tratados.


A mãe, com os olhos meio perdidos, me diz: “Pois é... Eu trazia meus filhos para as festas de aniversário de vocês quando vocês eram crianças. Hoje trago meus filhos (que ainda são “crianças”) para as festas das suas filhas...”. Fiquei meio sem resposta, mas logo lembrei a vantagem de se ter crianças em casa, a alegria que trazem e a companhia que nos fazem. E seriam sempre seus companheiros! 


Hoje eu percebo o quão idiota foi a minha resposta... Quando se vive com alguém que é totalmente alheio às maldades do mundo nós só temos a ganhar. Feliz de quem tem esta oportunidade! São seres especiais que Deus coloca nas nossas vidas... Dão trabalho, sim, e muito. Mas talvez seja este trabalho todo somado ao imenso amor que eles têm no coração que possa transformar alguns corações e vidas. São seres especiais, tão especiais que são infinitamente melhores quem muita gente “normal” que anda pelo mundo como uma sombra fazendo mal aos que são obrigados a conviver com suas tristes figuras.


Hoje não convivo mais com meus amigos, a casa hoje abriga uma empresa, mas os dois ainda estão lá e eu tenho certeza de que seja qual for a hora que eu resolva aparecer o abraço apertado estará me esperando. E isso me dá a mais profunda certeza que eles são mais mestres que aprendizes. E eu sempre reservo o meu sincero respeito a todos este seres de luz.


Há Braços! (tão apertados que chegam a deixar sem ar, como os meus amiguinhos sempre me deram...)

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