5 de mai de 2012

Acerca das cotas, ou do que é, afinal, justo:

(Publicado no Jornal Cidadela em 04/05/2012)

Semana passada o STF confirmou, por dez votos a zero, que as cotas raciais nas Universidades são constitucionais. Fiquei feliz por ver que um erro histórico está sendo reparado. Corri ler o voto do Ministro relator para embasar meu escrito desta semana. Foi quando me deparei com uma espécie de desabafo do meu primo que leciona da Faculdade Zumbi dos Palmares em São Paulo. Ele, melhor do que eu, sabe do que se trata esta decisão histórica. Com a devida autorização do autor, faço as dele minhas palavras:

Antes de falarmos de cotas raciais, vamos pensar em entender igualdade de ponto de partida. Numa democracia republicana, todos devem ter as mesmas oportunidades, ou seja, cor de pele, origem, herança, dinheiro dos pais, nada disso deve ser diferencial diante das dificuldades da vida. mais ou menos como é em países como, sei lá, a Suécia. Embora a Suécia seja uma monarquia.

Igualdade não é pura isonomia formal. Igualdade é igualdade, ponto. Há décadas mulheres lutam por igualdade. Por que lutam por isso, se formalmente são iguais aos homens? As mulheres sabem o porquê, pois mera igualdade formal não resultou em igualdade material.

Pensemos nas cotas nos partidos: 30% de candidatas. É preciso que haja cotas? Ora, não fossem elas, partidos haveria sem nenhuma participação feminina... Da mesma forma, foi necessária lei especial no campo penal. O código penal por si só não deu jeito. Foi preciso que se fizesse a Lei Maria da Penha, para coibir a violência - e mesmo assim a que custo!

O mesmo aos afro-descendentes, pardos, mulatos, etc. Embora haja isonomia, há igualdade? Não. Mulheres negras cresceram se achando feias. Nunca viram uma apresentadora de programa infantil negra... Homens negros cresceram pensando serem talhados apenas para trabalhos braçais. Cresceram sem ver médicos, advogados, engenheiros, ministros, etc, negros. Pois negro de terno é sempre segurança, pastor...

Pode parecer estranho a quem não é negro entender essa função da representação social. Mas ela existe, ela ocorre. Duvidam? Ouçam uma música antiga dos Racionais MC's, chamada "periferia é periferia", uma das falas é "aqui todo mundo se parece comigo". Sim, hoje o negro que alça a cabeça fora da classe baixa, não vê ninguém próximo a si por onde circula. Não vê.

Há advogados, médicos, dentistas negros, mas são poucos - tão poucos - que há poucos anos um dentista negro foi espancado por seguranças do Carrefour sendo acusado de roubar o próprio carro! É a isso que está sujeito um profissional negro de nível superior.

Todos aqui sabem que sou professor numa Faculdade chamada Zumbi dos Palmares. Ela tem cotas... para brancos.

Quando a Faculdade era próxima a um Wal-Mart, os alunos que iam ao supermercado eram sempre seguidos pelos seguranças. Como acontece em vários shoppings. Há alguns meses um menino espanhol, negro, foi expulso de um restaurante, enquanto os pais não estavam por perto. O caso ganhou a mídia.

Tudo isso ocorre, pois, não se vêem negros habitualmente nesses locais. 124 anos da abolição da escravatura e ainda não se vêem negros em diversos locais. Em diretorias de empresas, por exemplo... São tão raros que muitas vezes são tratados como estrangeiros. Hédio da Silva Jr., meu atual diretor na Faculdade Zumbi dos Palmares, quando Secretário Estadual de Segurança Pública cansou de ser atendido em inglês nos aviões... Sim, eram tão raros negros em aviões que as aeromoças vinham falar com ele em inglês!

Algumas empresas americanas instalaram-se no Brasil, e houve o caso de uma na qual um diretor americano chegou ao Brasil e logo notou que não havia nenhum negro em cargo de maior destaque. Escandalizou-se. Mas escandalizou-se mais ao saber que era por falta de negros qualificados, e então aquela empresa passou a qualificar negros para esses cargos. Para que a diversidade do Brasil estivesse representada de cima abaixo, e não se reproduzisse o que sempre soubemos: pobreza no Brasil tem cor.

Fui e sou aluno de escola pública de excelência, talvez a melhor do Brasil, com certeza a mais tradicional. Não sou abastado, apenas eu sei do meu esforço, por exemplo, em obter proficiência em três línguas estrangeiras sem ter feito uma única aula particular delas. Mas como cheguei a isso? Ah, sim, há o meu esforço, mas ele não veio sozinho. Sou filho e neto de professores. Desconheço analfabetos na família há gerações. Mas uma coisa eu posso afirmar: eu pude sonhar em ser aluno da escola onde agora persigo meu terceiro diploma. Por onde me tornei Bacharel e Mestre, e um dia, quiçá, Doutor.

Tenho um aluno, na Zumbi dos Palmares, que matriculou-se apenas após os 30 anos. Quando ele tinha 16 anos e disse aos pais que queria fazer Direito. seu pai levou-o a uma faculdade e mostrou, dizendo: "Meu filho, não tenha sonhos impossíveis. Olhe só, só há brancos! Aqui não é lugar para nós. Olhe como nos olham!" - o pai estava apenas tentando proteger o filho de frustrações... Foi preciso que o pai morresse para o filho arriscar. Arriscou. É meu aluno, aplicado, inteligente, digno de estudar num curso de qualidade.

Eu faço questão de instilar nos meus alunos o sonho de serem advogados, promotores, juízes. Mas não têm ideia de como impactou o imaginário deles terem aulas com advogados, promotores e juízes negros. Impactou muito mais do que as minhas falas. Deu-lhes a oportunidade de sonhar com o possível. E se não conseguirem? Ficarão revoltados? Não, apenas frustrados. Pois terão tido a chance.

Na adolescência eu nadava. Competia. Nadava de seis a oito mil metros todo dia. Tenho até hoje uma grande capacidade pulmonar por isso. Mas não me tornei um atleta olímpico. Eu tinha como modelo Ricardo Prado, um nadador baixinho. Tá, mas por mais que eu treinasse, eu não melhorava. Não me tornei um atleta olímpico. Nem campeão estadual. Não me revolto por isso. Não deixei de ser um atleta por falta de piscinas, por falta de treinos, mas pela minha própria inaptidão para isso. Não tinha e não tenho a vocação pras piscinas. Tive aminha chance de fracassar.

O mesmo deve ser permitido a cada negro desse país. A chance do fracasso. Do fracasso próprio e não imposto por fatores externos, por uma estrutura social. Cotas para mulheres nos partidos não asseguram sua eleição, mas garantem a chance. É de garantir a chance que se fala. É dessa igualdade material de que se fala. É isso que o STF decidiu.

Quando da aprovação da Lei do Divórcio na década de 70 do século XX, dizia-se que se aprovada acabariam os casamentos. Que nada, eles aumentaram! Dizia-se que o mundo iria acabar com as mulheres tomando pílula e não casando mais virgens. Não vi ninguém virando gay só porque o STF aprovou a união civil entre homossexuais. As crianças saudáveis não deixaram de nascer porque se permite o aborto de anencéfalos. E não, podem apostar o nível das faculdades não vai cair com cotas pra negros.

As cotas são medidas provisórias. É só enquanto houver desnível entre escolas públicas e particulares. É só enquanto não houve escola pública de qualidade. Quem sabe agora a classe média branca saia nas ruas fazendo passeatas pela escola pública de qualidade, apoiando lutas de professores que ganham salários famélicos, apoiando a criação de bibliotecas públicas de qualidade?

Pois, se os motoristas respeitassem as bicicletas, desnecessárias seriam as ciclovias, assim como se fosse o sistema de ensino de fato igualitário, desnecessárias seriam as cotas.

E aos que se espantam pela minha posição “pró cotas”, apenas esclareço que sou coerente com minha formação. Fui aluno do Ministro Lewandowski que também citou meu outro professor, Dalmo Dallari. Estudei no ninho do abolicionismo no Brasil. Quem estudou debaixo das mesmas arcadas onde Castro Alves escreveu seus poemas pela abolição, não pode renegar sua formação. Sim, são as Universidades que apontam o caminho do futuro, e ele é misturado e colorido, heterogêneo. O futuro é à esquerda e avante!

Assinado: Odir. Mestre e aluno. Mochileiro e ciclista ninja no trânsito de São Paulo. Simples “aeô do ilê axé”, que escreveu esse texto ouvindo "lado B lado A" d'O Rappa.

P.S - Obrigado ao DEM e outros conservadores por terem entrado com essa ação que permitiu o STF manifestar-se de forma unânime pela constitucionalidade das cotas sociais e raciais nas Universidades. Que, repito, são provisórias, vigorando até o dia em que o filho da patroa estudar ao lado do filho da empregada. Obrigado aos conservadores, por me motivarem a cantar em alto e bom som, que "não abro mão da mitologia negra pra dizer: eu não pareço com você!"

Nenhum comentário:

Postar um comentário