18 de jun de 2012

Muito além da invasão da propriedade alheia:


(Publicado no Jornal Cidadela em 15.06.12)

Como os amigos leitores já sabem, sempre que vou à São Paulo procuro fugir da correrias dos shoppings centers e aproveito a companhia das minhas filhas para conhecer um lado da cidade que só os socialmente engajados conhecem. Esta vez eu tive a oportunidade de ter contato com os movimentos de ocupação dos imóveis da região do centro da cidade. Sempre tive simpatia por estes grupos, afinal de contas um imóvel que está há décadas abandonado tem mais é que ser ocupado por famílias. Quando morar é um privilégio, ocupar é um direito. Isto se chama “função social da propriedade”. É norma constitucional, não se discute.

Foram dias frios e chuvosos e isto me deu a oportunidade de reforçar minhas convicções. Ninguém merece, seja adulto, criança ou idoso, morar na rua em frente a prédios que só servem para especulação imobiliária. Conheci por dentro. Apesar da precariedade os ambientes são limpos e organizados, com regras de convivência que são obedecidas por todos. Engraçado que não lembro de ter visto este tipo de informação nas matérias que vejo na imprensa em geral. Aliás, os ocupantes são sempre chamados de “invasores”.

Na quinta-feira à noite participei de uma reunião estendida, membros de outras ocupações da cidade de São Paulo bem como ativistas e alunos de Arquitetura da USP se encontraram na ocupação da Rua Mauá, na Estação da Luz – lugar onde propositalmente, e já com vistas na desvalorização para futura entrega a uma concessionária, é chamado de “cracolândia”. Não, por mais que tentem impor este estigma ali sempre será a Luz. Lugar de gente que trabalha, que ama o seu chão. E que se ocupou é porque não houve outra alternativa. Por sinal, os testemunhos ali são de casos de doença, de alugueis extorsivos ou até de aluguéis “pagáveis”, mas tão longe que nem dava tempo de chegar em casa e já tinham que se arrumar para voltar ao trabalho. Coisa de quatro horas pra ir, quatro horas pra voltar. Daí não dá!

Quando eu ouvia falar em “cracolândia” nem passava pela minha cabeça o que realmente se passa por trás desta história toda. Naquela reunião tomei conhecimento que todo esse misancene trata-se de uma estratégia para revitalizar a Luz, mas as pessoas que ali moram estão atrapalhando os planos, ou melhor, elas nem estão incluídas neste plano de entregar toda aquela área para uma concessionária explorar. Por certo haverá a necessidade de pessoas para trabalhar nestes novos espaços para turistas, mas não importa nem ao governo municipal, nem a empresa privada se estas pessoas vão levar horas para se deslocarem de suas casas. 
 
Ainda bem que uma liminar suspendeu a publicação do edital. Os moradores da Luz dormiram uma ou duas noites mais tranquilos. Mas como a febre das desapropriações tomou conta da cidade de São Paulo, no sábado outra ocupação sofreu uma reintegração de posse... Adultos, idosos e crianças na rua naquele frio, naquela chuva... O que me deixa de cabelo em pé é que a (in)jJustiça tem dado o direito de retomar o bem a quem, via de regra, deve milhões de IPTU referente a este mesmo imóvel. Como assim? Alguém explica isso! Foi no Pinheirinho, e está sendo a regra...

Na sexta-feira conheci a ocupação do antigo Columbia Palace Hotel, na rua São João. Um hotel que depois de 18 anos fechado e baldio há dois anos fora ocupado. Tive acesso à área comum onde as regras de convivência estão expostas nas paredes e nas reuniões semanais. Participei de uma sessão do Cineclube deles que neste dia tem programação voltada para as crianças. O tema da noite era o Meio Ambiente e dois dos curtas eram produção da nossa UNIVILLE! Apesar do frio e do vento que entrava pelas janelas quebradas, a criançada estava lá tomando um suco e interagindo com os filmes. Uma alegria só! Este trabalho de levar a Cultura a este local e feito através de um projeto chamado Ocupação Cultural. Um jovem casal mergulhou nessa empreitada de fazer a diferença na vida dos excluídos, mudaram-se de vez para lá. Hoje são iguais e como iguais são tratados. 
 
Nas imagens que vemos por aí temos a impressão que os lugares ocupados estão longe de poderem ser chamados de lares, a impressão de temos é de que a sujeira e a desorganização impera. Isso sem falar dos que têm em mente que quem opta por este tipo de moradia não trabalha ou vive às expensas dos programas do Governo Federal... Ledo engano! Apesar da precariedade, tudo é muito limpo e organizado. Em ambas as ocupações conheci os banheiros, na da São João cheguei o fotografar o chuveiro coletivo. Banheiros mais limpos de que alguns que estão nas casas de algumas pessoas “de bem” que eu conheço...

As crianças são um capítulo a parte! Na primeira reunião um garotinho nos mostrava o quanto era feliz ali. Pulava de um colo ao outro distribuindo um salgadinho barato que carregava num pacotão. Tão diferente de algumas crianças onde a expressão “é meu!” vem sempre acompanhada de uma birra egoísta. Na sessão do cineclube a pequena Maíza se aninhou no meu colo, percebi que a necessidade do calor do meu casaco era maior do que a necessidade do meu calor humano. Tanto ela como as demais crianças estavam impecavelmente limpinhas, os cabelinhos eram cheirosos como os dos nossos filhos. A roupa é que era pouca para aquela noite fria...

Os pais? Diferentemente do que se tem em mente por conta do senso comum, não ficam em casa “vadiando”. A grande maioria trabalha em turnos sacrificantes nos horários mais estranhos, fazem tarefas que nós não aceitamos ou aquelas que existem para o nosso deleite como receber comida chinesa em casa às três horas da manhã. Para isso acontecer, cozinheiros, ajudantes de cozinha, motoboys estão acordados. É de se imaginar que durante o dia estarão em casa (geralmente cuidando dos filhos no turno de trabalho do companheiro). Em cidades grandes há muitas outras formas de se ganhar a vida que não passa por “bater ponto”. Aquele povo se vira.

Já me estendi demais. Confesso que entrei uma e saí outra destas duas experiências. É tão fácil a gente fazer juízo de valor sobre a vida dos ocupantes [nunca me ouviram e nem me ouvirão dizer “invasores”]. Podem ter certeza que ninguém mora precariamente porque quer, a necessidade fala mais alto. Mas isso não tira o brilho dos olhos e a fé em dias melhores. Uma lição para nós que do “alto” das nossas poltronas confortáveis, nos achamos no direito de defender a injustiça por conta de um conceito de “propriedade” criado por nós mesmos e que em sua essência já é excludente. Se é meu, não é seu. Onde foi parar o “nosso”?

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