7 de set de 2012

Sucupira:


(Publicado no Jornal Cidadela em 07.09.12)
Quem se lembra da novela “O Bem Amado”?
O prefeito Odorico Paraguaçu, um político corrupto e cheio de artimanhas, tem como meta prioritária em sua administração na cidade fictícia de Sucupira, a inauguração do cemitério. De um lado, é bajulado pelo secretário gago Dirceu Borboleta, e conta com o apoio incondicional das irmãs ajazeiras, suas correligionárias e defensoras fervorosas: Doroteia, Dulcineia eJudiceia.
Doroteia é a mais velha, líder na Câmara de Vereadores da cidade. Dulcineia, a do meio, é seduzida pelo prefeito. E Judiceia é a mais nova - e mais espevitada. São três solteironas avessas a imoralidades - pelo menos em público, já que Odorico sempre aparece de noite para tomar um "licor de jenipapo"…
De outro, tem que lutar com a forte oposição liderada pela delegada de polícia Donana Medrado, que conta com o dentista Lulu Gouveia, inimigo mortal do prefeito e líder da oposição na Câmara - atracando-se constantemente com Doroteia no plenário. E ainda com o jornalista Neco Pedreira, dono do jornal local, A Trombeta. O meio-termo se intensifica com a presença de Nezinho do Jegue, defensor fervoroso de Odorico quando sóbrio, e principal acusador, quando bêbado!”
Os mais velhos devem lembrar-se dos episódios desta novela, de como as coisas aconteciam em Sucupira. Os mais novos já devem ter ouvido falar. Era uma cidadezinha pequena onde coisas bizarras aconteciam aos montes. Bajulação e cenas tão descabidas que beiravam o ridículo nos faziam rir. O autor acertou em cheio em criar a caricatura de uma cidadezinha pequena onde políticos se prestam a qualquer papel.
Quem se lembra do almoço com o governador que aconteceu dia 06 de fevereiro? Eu até fiz uma brincadeira no Fecebook e criei um evento de nome “Rega bofe do Raimundão”. Uma alusão ao fato de que aquilo tudo estava sendo pago com dinheiro público – nosso – e que a entrada deveria ser franqueada aos verdadeiros pagantes – nós. Lógico que era apenas uma chacota. Esse tipo de compromisso em plena quarta-feira é coisa pra político e seus “aspones”, e os puxa-saco que não batem ponto.
Eu dei um jeito de ir só pra assistir, meio que de longe, o circo que havia sido montado. Sucupira é pouco! Quase tive um acesso de riso ao me deparar com a cena: uma multidão de comissionados e outras tantas figuras carimbadas suando em bicas debaixo de um sol das 11:30h aguardando a chegada do Raimundo Colombo. Em frente ao clube duas passistas de alguma escola de samba (pelo menos elas, seminuas, não estavam derretendo ali).
Chega o governador, camisa azul com duas imensas marcas de suor sob os braços que faziam prova de que tudo o que ele mais queria era um ambiente com ar condicionado. Mas ficou no “queria”... Abraços e apertos de mão (suados, nojentos), fotos e a apresentação das moças que, rebolando e se requebrando, sorriam um sorriso tão forçado que me deu pena. Talvez elas fossem as únicas a perceberem o quão desnecessárias eram as suas presenças ali.
Eu já tinha visto o suficiente, inclusive a mesa de honra composta até pelo radialista da cidade, mas sem o juiz que nem chamado fora para compô-la, apesar de estar presente no evento. Mais Sucupira impossível. Desci, fui comer num restaurante pago com o meu dinheiro. Devo ser justa, alguns outros convidados também desceram e pagaram por suas refeições, nem todo mundo tem a cara-de-pau de ir em bando nessas “bocas livres”. Em cidade pequena isso dá muito na cara.
Daí eu lembro que em Sucupira o prefeito Odorico sofria o dilema do cemitério da cidade: sem morto não havia inauguração da sua maior obra. Aqui nosso prefeito está em situação mais confortável, “ir aos pés” é coisa que todo mundo faz, basta estar vivo. O banheiro público sempre será usado, afinal estamos todos vivos e não contamos com muitas outras opções para a hora do aperto. Nem precisa convidar o povo para conhecer a grande “obrada” de sua gestão... Uma hora ou outra a gente acaba indo.
Mas falando em cemitério... Não é que somos uma Sucupira invertida? Lembram do processo que deu prazo de seis meses para a Prefeitura se adequar no tocante às licenças ambientais? Lembram que muitas taxas até foram recolhidas na FATMA onde o atual candidato a vice era coordenador? O que aconteceu que esta semana? Por que fomos surpreendidos com uma inusitada proibição de sermos enterrados??
Está engraçada a coisa: todo hervalense nasce em Joaçaba, mas todo joaçabense talvez tenha que “morrer” em Herval d’Oeste. Surreal. Agora fica fácil entender aquilo “da arte imitar a vida” e que os autores costumam se inspirar em situações verídicas para descreverem suas Sucupiras. Joaçaba tem seu Odorico e ele tem tudo para, num ato de “sucupirança”, baixar o seguinte decreto:
A partir desta data os cidadãos joaçabenses estão proibidos de morrer. Não serão admitidas nem morte morrida, nem morte matada. Sob pena de virar defunto hervalense”

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