2 de fev de 2013

O que um brasileiro fora do Brasil pensa do que acontece no Brasil:

Encontrei esse relato num grupo de debates do FB. O autor é ferrenho protetor de animais e tem uma visão de sociedade que poucos têm. Atualmente mora na Áustria:

Amigos do Facebook,

Espero que TODOS vocês entendam que o que escrevo não é uma crítica pessoal. Tratando de posicionamento político, é muito difícil ser totalmente imparcial, não se deixar influenciar pelo que se acredita. Tenho lido aqui muitas críticas a respeito dos governos do PT, os dois do Lula e agora da Dilma. Oposição séria, educada e bem intencionada é ótima. Sou um cidadão brasileiro, quero um país justo, respeitoso e respeitado, e não é por ser filiado ao PT que deixo de enxergar o que é está certo ou não. Escolhi o partido, mas antes de tudo sou brasileiro. Existem aqui muitas críticas aos programas sociais do governo, os mais combatidos são o Bolsa Família, cotas para negros nas universidades, dentre outros.

Programas sociais quase todos os países tem. Em alguns parecem até desnecessários, como os considerados de primeiro mundo. Tenho como exemplo o tempo que vivi na Inglaterra, entre Londres e Newbury (Berkshire) foram mais de dez anos. Pensava sempre que seu conseguia trabalhar, antes ainda de ter fluência no idioma, muitos ingleses conseguiriam também. Partindo desse ponto, existe uma pequena parcela da população inglesa acomodada, buscando “vida fácil”. Falo da Inglaterra, uma das maiores economias do mundo, país de grande respeito aos direitos humanos e dos animais, organizado e bom de viver. País onde existe pobreza, mas muito, muito longe dos padrões brasileiros. Lá existe auxílio moradia (quando a casa não é do governo), auxílio para filhos menores, auxílio alimentação, etc. Li outro dia, não sei se verdade, que na Suíça o governo paga prostitutas para pessoas idosas sem vida conjugal, programas sociais...

Numa viagem turística ao Ceará em 2006, no trajeto de 300 km de van de Fortaleza a Jijoca de Jericoacoara pela BR-222, com destino final Jericoacoara, eu era o único turista na van. Tive a oportunidade de conversar com a guia e o motorista. Comentei com eles que era a minha primeira vez no Ceará e que esperava um a paisagem seca e não verde. Eles disseram que estávamos no inverno, época de chuvas, então estava tudo verde na faixa litorânea. O motorista é natural de uma cidade do sertão e contou que durante o verão tudo é seco e não se planta nem colhe nada (propriedades pequenas) e que a fome é terrível. Muitas pessoas, principalmente crianças, ficam a beira das estradas, pedindo comida. Em momento algum disse a eles que era filiado ao PT. Aproveitei para perguntar sobre os programas sociais e os resultados. Foram unânimes em dizer que pela primeira vez alguém se importou com o problema e que ao menos tinham o que comer durante a época do ano em que não se produz por causa da seca.

Então eu pergunto: qual é o problema do Bolsa Família? Pessoas que utilizam e não deveriam? Então o problema é de quem usa e não do programa. “Ah, mas assim vão criar vagabundos” como os do exemplo inglês que eu mesmo cito. Então o problema são os aproveitadores, pois EXISTEM muitos necessitados que até uma melhor solução tem que COMER todos os dias, ou alguém pode passar sem comida? Dizem que essa é uma solução paliativa, mas antes nem a paliativa existia. Meu dinheiro do imposto está muito bem empregado nos programas sociais do governo.

Lembro minha infância, na década de 70 em que morávamos numa casa simples com um aparelho de TV Colorado RQ preto e branco. Nossa casa era um metro mais baixa que o nível da rua e quando passava Disneylandia aos sábados ou desenhos, abríamos a janela porque na calçada ficavam até 30 crianças amontoadas para assistir. Meu pai preparava jarras de Q-Suco para as crianças, a maioria com roupas esfarrapadas. Quase todos os dias da minha infância batia alguém na nossa porta pedindo comida, roupas, dinheiro para remédios. Isso diminui muito e por isso não concordo com as críticas aos programas sociais, fome não espera! Não precisaríamos “dessa esmola” como muitos gostam de dizer se nossa sociedade fosse democrática e solidária. Já que não é, que ao menos o governo seja!

Ricardo Bilibio, no Brasil trabalho como representante comercial e aqui trabalho numa fábrica como operário, estou morando em Ludesch, Austria.

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