1 de abr de 2013

A Febre do Rato e outras "febres":



Dias 22 e 23 de março tivemos, em Joaçaba, a 1ª. Mostra de Cinema Independente juntamente com a Noite da Pipoca que a UNOESC faz todos os anos. Esta edição trouxe o Produtor Executivo Marcello Maia – da República Pureza - e suas obras, sendo que o “A Febre do Rato” foi a que mais foi debatida, deixando “A Erva do Rato”, “Novela Vermelha” “O Velho, o Mar e Lago”, “Moacir Arte Bruta”, “Tropel” e “Reminiscências” com apenas um que outro comentário.

Omar Dimbarre é um amigo que me pegou pela mão para me guiar pelos caminhos do bom cinema. Eis o que ele comentou no dia seguinte à Mostra:

"A Febre do Rato é uma ode a liberdade. Fazia um bom tempo que um filme não mexia tanto comigo. Irandhir Santos está sublime. Uma interpretação magistral, bem diferente das interpretações caricatas tão presentes em atores globais. Cláudio Assis orquestra muito bem todo o filme, numa direção altamente competente, e a fotografia em preto e branco do mestre Walter Carvalho é belíssima.

Quanto ao fato de algumas pessoas ficarem chocadas com cenas de nudez, creio que o Marcello disse tudo no sábado. O cinema norte-americano é o mais anti-família do mundo, mas lamentavelmente para a maioria das pessoas, violência extremada pode, cenas de sexo não. Como se ninguém praticasse...

Gostei de todos os demais filmes, mas "A Febre do Rato", vai estar presente em minha imaginação por um bom tempo."

Durante a semana “ouviu-se!” muitas coisas nas redes sociais:

“Até eu me envergonhei!! Oo”
“Que vergonha, nem eu acreditei que estava vendo aquilo...”
“Por isso que o cinema brasileiro não vai pra frente! Só sabem fazer filme com sexo explícito e drogas! Poxa. Me senti envergonhado por saber que tinha convidados e um menor assistindo, sem falar dos menores da primeira fase de PP! #desabafo”
“Nossa, me senti envergonhada gente! Infelizmente como acadêmica fico triste pelo nosso curso ter passado por isso! E ainda por cima sendo um evento prestiado por um grande publico externo!”
“é... mas é filme prá ser "ler nas entrelinhas"... só para ADULTOS MESMO... prá se ver abstraindo os conteúdos "morais" impostos pela sociedade. Enfim, o filme é uma obra de arte "independente"... é isso que os alunos tem que avaliar e ver com os olhos da arte, não das "convenções sociais"... Por essas e outras, o evento poderia ser "fechado" com público restrito, selecionado... As pessoas não estão todas abertas e preparadas para o impacto de uma realidade que não conhecem, mas que existe... (vai dizer que não?).”
“Mas que fique claro aqui que o evento era do curso de comunicação social, então não tinha como ser restrito, fechado. Cada um com sua opinião, pra mim, aquele tipo de obra de arte é lixo.”
“Realmente a característica do Cláudio Assis é chocar o público, por isso ele permanece um dos diretores mais mal compreendidos do cinema brasileiro.”
“Também não gostei do filme, achei previsível. Conheço toda a obra do Cláudio Assis, ele esta numa estrada sem saída, um filme ficando mais igual ao outro. No próximo ele deveria tentar se reinventar um pouco.”
“Legal levantar também a questão da falta de humildade e ciência de alguns "cinéfilos" ao criticarem a pergunta feita no dia, de que se Marcello Maia acreditava viável a passagem daquele mesmo filme em cinemas comerciais, para o grande público. Uma pergunta simples, curiosa e de interesse geral que foi abordada como "de gente alienada" por muitos "super gênios não descobertos" da platéia. Esses, deveriam ter metade da humildade do executivo, que foi pragmático e suficientemente esclarecedor na resposta, não faltando com respeito em momento algum do bate-papo.”
“Mas o bacana é que Joaçaba recebeu uma mostra de cinema independente que poucas (ou nenhuma) cidade pequena brasileira receberia. Temos que dar opção para as pessoas. Sabe aquela história de que "pobre" não gosta de "música clássica"? Não gosta ou não tem acesso?”
“Concordo. Mas de fato, quanto menor é a mente, mais aberta é a boca.”
“Melhor filme da mostra: Moacir Arte-Bruta - Documentário - 72min Dirigido por Walter Carvalho Montado por Pablo Ribeiro Fotografado por Lula Carvalho Produzido por Marcello Maia 2005/2006”
“O filme eh maravilhoso, mas classificação foi vacilo mesmo! soh lamento nao poder ter ido no sabado!”
“Eu realmente não achei nada de mais. O longa "A Erva do Rato", mesmo contendo nenhuma cena de sexo explícito foi tão chocante quanto. Um voyeur mórbido e uma garota semi-frígida (detalhe às cenas finais do filme onde ele continua tirando fotos de seu esqueleto em posições eróticas) representam conteúdos muito mais pesados, e realmente adorei o filme. Ainda que o sexo explícito foi carregado com conteúdo cultural, porque sexo gratuito todos podem ver ao alcance de um controle-remoto.”
“Concordo em relação à classificação indicativa, mas julgar o cinema brasileiro como um todo só por causa de um ou dois filmes é apelo desnecessário.”
“Cinema Brasileira eh uma das maravilhas do mundo! hasuhaushuash Amo mto!”

Daí eu penso em criar vergonha na cara e escrever algo sobre a dita Mostra, da qual eu tenho parte da “culpa”, mas o amigo cinéfilo Márcio Lovato me “roubou” as palavras... Tentar escrever qualquer coisa depois disto é pura temeridade:

“EM DEFESA DO FILME “A FEBRE DO RATO:

Fiquei sabendo que “A Febre do Rato” causou alvoroço entre alguns acadêmicos da UNOESC. Ótimo! Creio que assim o filme cumpriu sua missão. Mas o que os teria irritado a ponto de amaldiçoarem a obra: as cenas de sexo na tina d´água, a genitália desnuda dos atores, as cenas de masturbação, o texto poético e contundente... Algumas pessoas rotularam o filme de pornográfico.

Honestamente, gostaria que me apontassem uma cena pornográfica no filme (se têm alguma dúvida sobre o gênero, então assistam “Garganta Profunda”). Aliás, a fotografia em preto e branco do mestre Walter Carvalho é simplesmente magistral, não apenas pela beleza plástica dos planos, mas por estar inteiramente conectada à narrativa, ou, melhor dizendo, por ter uma função narrativa tão relevante quanto os diálogos.

No debate realizado após a sessão, alguém frisou a importância cultural do Rio Capibaribe, que corta a cidade, às margens do qual muitas cenas foram feitas. De fato o rio também é um personagem, assim como a cidade do Recife, em cuja periferia homens sobrevivem com seu comportamento e linguajar peculiares. Zizo é um personagem quixotesco, que não acredita na transformação da sociedade pelo viés politico-partidário; discípulo de Bakunin, faz da poesia sua arma de combate. Um personagem que luta contra os moinhos de vento da intolerância, da força bruta, que trava sua batalha contra o sistema dominado por hipócritas individualistas, refugiados em seu conforto pequeno burguês. Certamente, é possível traçar um paralelo entre ele e outro personagem visceral da história do cinema brasileiro: o poeta Paulo Martins, de “Terra em Transe”, filme de Glauber Rocha, que, nos anos 60, provocou acirrados debates nos meios acadêmicos.

Enquanto o personagem glauberiano representa os intelectuais de esquerda, que tinham imensa dificuldade em se comunicar com o povo (basta lembrar a cena em que o poeta tapa a boca do operário quando este não consegue articular uma frase, mostrando todo o seu desprezo por aqueles que deseja representar e defender), Zizo demonstra extrema facilidade para dialogar com esse mesmo povo, com quem compartilha sua arte, recitando seus poemas e distribuindo seu jornal.

Para Zizo, a falta de escolaridade não é empecilho para que as pessoas sejam alvejadas pelo encantamento da poesia. Isso fica claro na cena em que lê um de seus poemas para Pazinho, e este lhe diz que não entendeu bem o conteúdo, mas achou bonito. Idealista, Zizo jamais subestima a sensibilidade do povo; ele acredita que a verdadeira mudança está em despertar as consciências embotadas, para a construção de um mundo mais justo e fraterno. Creio que esse é o papel do próprio filme, sendo o poeta o alter ego do cineasta, e o filme, o meio pelo qual o cineasta-poeta se expressa, como o jornal o é para o escritor-poeta. Penso que existem obras cuja apreciação, mais que preparo intelectual, requerem uma entrega incondicional do público, que deve superar seus tolos preconceitos e falsos pudores.

Sim, “A Febre do Rato” é um filme polêmico e corajoso, porque tira o espectador de sua zona de conforto, provocando reações extremas de amor e ódio; está mais para cinema “carne de pescoço” do que para “cinema pipoca”. É perfeitamente possível não gostar do filme por esta ou aquela razão, mas é impossível ficar indiferente a ele.

Aí reside, a meu ver, o valor da obra de arte. Enfim, deixo aqui uma bela e oportuna reflexão do poeta Manuel Bandeira sobre o papel da arte, que, por analogia, pode ser aplicada a este filme: Vou lançar a teoria do poeta sórdido. Poeta sórdido: Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida. Vai um sujeito. Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama: É a vida. O poema deve ser como a nódoa no brim: Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero. Sei que a poesia é também orvalho. Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.”

Antes de "bater a porta" deixo aqui o meu agradecimento à vida por ter me proporcionado conhecer Marcello Maia, e assim continuar acreditando que o mundo pode ser menos medíocre... Porque tem horas que até eu começo a duvidar! 

Salve Raul Seixas que dizia: "É preciso cultura pra cuspir na estrutura!" Pelo visto nem os fãs do Rauzito entenderam esta lição...

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