18 de jun de 2013

Desabafo de uma manifestante consciente:

Sabe o que eu senti sobre ontem?

É lindo que o povo, apesar de ser classe média em maioria, tenha saído da sua zona de conforto pra mostrar sua insatisfação, mas o que me preocupa é a descaracterização de um movimento contra o aumento da tarifa. Virou uma marcha contra a corrupção, um dia do basta, com um apelo extremamente nacionalista impensado (e nem vou me aprofundar sobre a presença de fascistas carecas que estavam lá por um sentimento patriótico, e não pela causa).

Parecia 7 de setembro! Nunca vi tanta gente empunhando uma bandeira sem ao menos saber o peso que isso carrega! Eu me senti minoria lá, senti como estivesse em qualquer lugar, menos no ato contra o aumento, que preza por uma vida sem catracas e sem fronteiras!

Não estou falando sobre ser pacífico, até porque, apesar de achar que protesto que é protesto, tem que colocar medo dos covardes engravatados que nos rebanham todos os dias, nem que seja pela força de gritos, eu reconheço que foi uma forma linda de mostrar que as pessoas são capazes de se organizar pacificamente e ocupar cada rua da cidade que lhes pertence.

O que vi, eram pessoas passeando calmamente, cantando hinos e exaltando uma ideia tão abstrata quanto a de pátria. Esse apelo nacionalista, que une as pessoas e move multidões pelo concreto da cidade, é realmente perigoso. Basta dar uma olhada na história pra percebermos o quanto essa ferramenta é manipuladora.

A galera que estava no ato, ao menos a maioria, foi porque a mídia, após ter sido atacada pela PM, volta-se a favor das manifestações e denuncia toda a ação truculenta dessa polícia que já deveria ter sido reestruturada há muito tempo. Todo mundo achando uma grande festa. E foi, admito, uma cena bem bonita, ver as pessoas unidas por um propósito comum, mas de longe foi isso que as trouxe a rua, porque antes mesmo das ações da PM essas pautas já eram mencionadas pelo movimento e já estavam lutando por isso.

O que as uniu, essa ideia da bandeira, é o que nos faz ver que essas pessoas não pensavam em como é duro o dia-a-dia de quem atravessa a cidade pra manter a família. Eles foram por um sentimento de amor à pátria, amor à ideia de nação, e não de coletividade. É fácil perceber o tanto de gente que dava mais valor pra essa ideia do que pro pobre que se ferra todo dia. Além disso, surgiu um sentimento de ódio das pessoas que cantavam o hino e as músicas de exaltação da pátria, às pessoas que se recusaram e até pediam para não cantar. Não era uma proibição, mas naquele momento em que as pessoas falavam pra que não cantassem, era um apelo à reflexão. O resultado disso foi gente indignada porque não estavam "adorando a própria morte" a nossa terra adorada.

Essa mesma galera que ontem empunhou bandeiras do Brasil e gritou, também, pela diminuição da tarifa, é a mesma galera que reclama que tem gente fedendo dentro de ônibus de manhã. É a galera que mostra ojeriza a pobre nesses ambientes.

Senti como se aquela massa tivesse comprado a ideia que a imprensa vendeu quando quis, e depois, o ato contra o aumento da tarifa tivesse sido sequestrado e se tornado uma grande manifestação de "até a gente tá indignado". Ontem a polícia foi muito mais branda do que outros dias. Quando a classe média aparece em peso, não se pode "descer o sarrafo" no povo. Complica. Agora, o pobre na favela que apanhar sem ninguém ver, ninguém se revolta contra isso. A galera que estava inicialmente nos atos tinha isso bem claro em mente. Por isso toda essa rejeição. 

Não há como negar que a massa só se indignou porque casos isolados foram super focados e, mesmo com sua importância, moveram mais pessoas por essa indignação do que pela exploração que as classes mais desfavorecidas sofrem.

Eles se enxergaram na repórter, que só estava trabalhando quando levou um tiro no olho. Que estava pacificamente, que não tinha culpa. Não se enxergaram no pobre indignado com um transporte público decadente. É mais fácil abraçar a causa por onde se tem empatia.

Eu não quero desqualificar a presença de quem foi. Só queria que todo esse povo que se reuniu pela internet, que diz que o gigante acordou, percebesse que há um monte de gente acordada faz tempo, e que o que aconteceu foi simplesmente essa grande parcela da população que resolveu enfim tirar a bunda do sofá e fazer alguma coisa.

Repensem o motivo de estar lá. Há uma pauta inicial, e que certamente envolve outras questões, mas ela é um objetivo claro. Repensem suas atitudes reaças durante o cotidiano, porque de nada vale bradar por uma união contra quem rouba dos cofres públicos, se você é reacionário e leva uma vida explorando e oprimindo outras pessoas ao seu redor, em todos os âmbitos.

Se vamos todos às ruas, que seja olhando pro lado e percebendo cada pessoa como irmão, com um sentimento de coletividade e reconhecendo a exploração que cada um sofre, e não por um sentimento que nos foi internalizado, verde e amarelo, que é usado todos os dias contra nós mesmo numa maneira do Estado manipular a massa.

Vamos todos unidos, mas apenas por nós, porque reconhecemos em nós mesmo esse sentimento de compaixão, e não porque exaltamos esse título, essa bandeira que não nos representa. Estamos lá pelo povo, e não pela pátria.

"O povo unido, jamais será vencido!"

Camila Berka, 18 anos, São Paulo/SP.

Nenhum comentário:

Postar um comentário