6 de ago de 2013

Você tem fome de quê? - reflexões sobre a I Conferência de Cultura de Joaçaba


O texto é do amigo Rodrigo Bernardi que estava junto lá. Eu fiquei muito feliz em ver a minha proposta de democratização do Teatro Alfredo Sigwald ser aplaudida pelos presentes. Afinal, se não abre para todos os movimentos culturais, que se crie um novo espaço mais acessível [em todos os sentidos].

Na segunda-feira (05/08) participei da I Conferência Municipal de Cultura de Joaçaba. Esta foi a chance de ouvir um grupo de pessoas que estão à frente das instituições culturais do município e saber o que elas pensam, o que desejam, o que esperam desse encontro, e como articulam as demandas da população com suas respectivas áreas profissionais. Pude conversar com educadores, gestores culturais, artistas e membros do poder público. 

Havia um clima de satisfação por conta da oportunidade de troca de saberes, experiências, aprendizados e, certamente, por se tratar da valorização dos bens culturais do município de Joaçaba. (me lembrou o “Dança Manifesta”, realizado em 2004 por grupos e academias de dança que reivindicaram pela implementação de programas de formação e produção artística no município de Niterói – RJ). E como faz um tempo que venho me reunindo com um grupo de pessoas empenhadas em contribuir com o panorama artístico joaçabense, todo o agito da conferência veio a calhar, desde que haja continuidade e espírito de coletividade.

Uma das coisas que me chamou atenção foi a diversidade do público e as tentativas de definir a noção de “cultura”. Evidente que não se chegou numa única definição, ao contrário, o discurso das autoridades e, posteriormente, os relatos dos participantes, revelaram uma noção geral de “cultura”, isto é, uma dimensão da realidade e da prática social na qual todos, cada um à sua maneira, participam em produções simbólicas, ou seja, aquilo que construímos por meio de atividades artísticas, assim como a valorização de costumes, valores e crenças, em respeito as diversidades econômicas, sociais, étnicas e raciais, as quais formam a identidade cultural da região do Vale do Rio do Peixe.

A importância deste encontro opera na abertura de um diálogo entre a sociedade civil e o poder público, em princípio, abrangente, sobre o panorama cultural do município. Outro aspecto, foi a oportunidade oferecida à população de Joaçaba, que lotou a Câmara dos Vereadores, de eleger os membros do Conselho Municipal de Cultura e, sobretudo, de refletir e compartilhar ideias acerca de um Plano Municipal de Cultura, cujo foco são quatro eixos-temáticos: Implementação do Sistema Municipal de Cultura, Produção Simbólica e Diversidade Cultural, Cidadania e Direitos Culturais, Cultura e Desenvolvimento. Pode parecer ingênuo todo esse vislumbre, mas é que há algum tempo venho me perguntando por que uma oportunidade como essa nunca havia acontecido em Joaçaba. Corrijam-me se eu estiver enganado! 

Ora, Joaçaba é a cidade do cineasta Rogério Sganzerla, que na década de 1970 foi para São Paulo se aventurar como crítico de cinema; aqui temos um imenso polo universitário com um amplo espaço para a prática de esportes radicais, entre outras atividades; é a cidade onde acontece um festival de dança e de teatro que ocorrem (se não me engano) na mesma semana, mobilizando artistas, técnicos e pesquisadores de outros estados; é também uma cidade musical, com bandas de rock, música sertanejo e nativista; dizem (aí já não tenho certeza) que o melhor carnaval do sul do país é aqui, mas como pode ser o melhor se o espaço público não é democrático? E mais, se é uma festa popular, porque não descentralizar, e levar um pouco da alegria que contagia a parte central da cidade aos bairros mais distantes. 

Em algum momento tive a sensação de que as três horas previstas para a duração de toda a conferência seriam insuficientes. E foram, pois o debate sobre cultura não se esgota no que foi descrito linhas atrás. Lidamos constantemente com a noção de cultura como objeto de manutenção das relações de poder. Isso não é novidade e, de certa forma, é necessário desde já refletir sobre tal paradigma e por em prática ações que privilegiem absolutamente todos. E todos, incluem os skatistas, bem como foi lembrado no discurso de uma jovem de 16 anos sobre a qualidade dos espaços públicos destinados à prática esportiva e entretenimento. Além dela, outros colegas fizeram apontamentos de extrema relevância no que diz respeito ao resgate, difusão e promoção da cultura de Joaçaba: a criação de um museu, a ocupação e democratização dos espaços públicos do município com atividades artísticos-culturais, a criação de um centro de artes integradas, a revitalização da feira de artesanato, o estabelecimento de uma agenda cultural anual, a valorização da cultura afro-descendente no âmbito escolar por meio da dança, da música e da literatura e assim por diante.

E esta é só a pontinha do iceberg... 

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